A solidariedade naquilo que pertence aos outros
A cena inicial de What Belong to Others me colocou imediatamente dentro de um filme dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, ou de alguma forma de realismo social europeu. Kasia é cobrada os aluguéis atrasados e o estado de conservação lastimável do apartamento onde mora pelos proprietários. A câmera na mão, rente aos personagens e reagindo à ação, os cortes secos, a ausência de trilha sonora e o subtexto econômico sugerem um cinema interessado em observar, realisticamente, a vida de uma pessoa pressionada por aspectos materiais. Mas não é apenas essa pressão que interessa ao diretor e roteirista Grzegorz Dębowski.
Kasia (Kwiatkowska) ainda é pressionada por Darek (Mania), namorado ou companheiro que, embora não pareça fisicamente abusivo, o é afetiva e emocionalmente. Eles são mais comparsas do que propriamente um casal. Juntos, cometem furtos e delitos em condomínios de apartamentos: enquanto ele participa das invasões, ela finge ser uma faxineira e explora os imóveis com portas abertas em busca de objetos para penhorar ou valores escondidos pelos moradores.
Depois de mais um golpe, porém, o casal é separado quando o marido vai para a prisão. Sozinha, Kasia retorna para casa e descobre que foi despejada. Reúne seus poucos pertences e volta ao condomínio que havia invadido naquele mesmo dia, mais especificamente ao apartamento que abandonara rapidamente depois de encontrar alguém. Este alguém, na verdade, é o cadáver do proprietária, que cometeu suicídio. Apesar da circunstância, Kasia decide ocupar aquele espaço e investigar quem esse homem era. No começo, existe uma motivação pragmática e oportunista: ela assume a identidade de companheira do falecido e tenta se apossar do seguro de vida. Contudo, conforme conhece as memórias, os relacionamentos e os segredos daquele homem, Kasia passa a desenvolver uma relação com alguém que nunca conheceu.
Essa mudança que faz o filme dialogar de maneira mais interessante com sua própria cena inicial. Há uma vizinha, logo no começo, que afirma não dar conta da vida de quem mora ao seu lado. O que seria somente um comentário sobre a distância entre os indivíduos que compartilham o mesmo espaço urbano, termina funcionando como uma chave interpretativa para todo a narrativa e para a ambição de Dębowski. A narrativa passa a investigar a possibilidade de solidariedade e comunidade por trás do individualismo de sobrevivência nas grandes cidades. Kasia visita a mãe do falecido, depois sua irmã e, mais tarde, sua ex-esposa. Cada encontro revela mais um fragmento daquela existência na qual ela esbarrou, mas também demonstra aquilo que acontece quando começamos a nos importar com o outro não de uma forma material, e sim humana.
O título ganha, assim, um significado mais amplo. Em vez de apenas designar simplesmente aquilo que Kasia furta, passa a incluir suas memórias, suas relações, suas dores e aquilo que cada pessoa carrega consigo sem que os demais saibam. A sensibilidade da narrativa está na ideia de que a solidariedade deveria funcionar como um tecido protetor debaixo da sociedade, capaz de impedir que pessoas desapareçam dentro dos próprios apartamentos sem que ninguém perceba por trás das paredes finais, por exemplo.
Nesse sentido, a direção de arte de Maja Pawlikowska-Kobylińska e Magdalena Marszałek transforma os espaços internos em pequenas extensões dos personagens que revelam formas distintas de viver, esconder-se e se relacionar com os outros. Kasia passa a maior parte do filme entrando nesses lugares, à procura de bens e valores. Aos poucos, contudo, a sua relação com esses mesmos ambientes muda e em vez de enxergá-los apenas como minas de itens para serem penhorados, ela começa a ser convidada a entrar nesses espaços, não só invadi-los, ouvir as histórias das pessoas e conhecer aqueles que os ocupam.
O filme também ganha força justamente porque não tenta tornar sua protagonista uma mera vítima da realidade. Kasia furta, mente e se apropria da identidade de alguém que morreu. Mesmo quando começa a estabelecer alguma relação com os familiares do falecido, carregamos conosco a consciência de que tudo surgiu de um estelionato e não ficamos plenamente seguros de que tudo isso correrá bem. Há uma (des)confiança naquilo que Kasia revela a partir de gestos, comportamentos e impulsos, que serve para conferir-lhe uma complexidade maior.
Mas o filme também guarda uma dimensão feminista que, para mim, acaba competindo com o tema socioeconômico – não que sejam antagônicos. A situação de Kasia é determinada, em boa medida, pelo marido, pela dinâmica de violência emocional e pelas condições que a levaram a viver da forma como vive. Não é difícil perceber a dimensão humana de uma história sobre uma mulher submetida a uma relação que restringe sua autonomia e que precisa reaprender a existir quando esse homem desaparece, mesmo que permaneça nas sombras. Essa camada, embora compatível com a discussão sobre solidariedade, sobretudo com o tema de sororidade, divide sua atenção nem sempre de maneira orgânica.
Ainda assim, há algo eficaz na maneira como o filme constrói relações entre pessoas que, à primeira vista, não deveriam ter nada em comum. Kasia se aproxima de pessoas através da mentira, mas produz uma oportunidade para aquela família fragmentada se perdoe. Isso redime uma personagem mesmo quando não simpatizamos com ela, e de uma forma natural, porque a sua trajetória não é a de uma mulher que se torna subitamente virtuosa, mas de alguém que, pela primeira vez, descobre que é capaz de viver sozinha e qual o significado de solidariedade.
What Belongs to Others é um drama social realista e feminista que encontra sua força quando se transforma em um filme sobre as pessoas. O filme talvez fosse melhor caso sua discussão sobre a condição feminina não competisse tanto com essa ideia central, mas sua capacidade de transformar delitos em oportunidades de recomeço e propriedades impessoais em espaços de humanidade, bem como intimidade é inegavelmente sensível. Não é que as pessoas estejam interessadas em permanecer sozinhas, no fim das contas, talvez só tenham desaprendido que podem contar umas com as outras.
O filme está na Mostra Orizzonti do Festival de Veneza 2026.
Solidarity in What Belongs to Others
The opening scene of What Belongs to Others immediately placed me inside a film by Luc and Jean-Pierre Dardenne, or at least within some form of European social realism. Kasia is confronted by her landlords over unpaid rent and the deplorable condition of the apartment where she lives. The handheld camera, close to the characters and reacting to the action, the abrupt cuts, the absence of a score, and the economic subtext all suggest a cinema interested in observing, realistically, the life of someone under material pressure. But that pressure is not the only thing that interests director and screenwriter Grzegorz Dębowski.
Kasia (Kwiatkowska) is also pressured by Darek (Mania), her boyfriend or partner who, although he does not appear to be physically abusive, is emotionally and psychologically abusive. They are more accomplices than a couple, really. Together, they commit thefts and petty crimes in apartment buildings: while he participates in the break-ins, she pretends to be a cleaner and explores apartments with open doors, looking for objects to pawn or valuables hidden by their residents.
After another burglary, however, the couple is separated when the husband is sent to prison. Alone, Kasia returns home and discovers that she has been evicted. She gathers her few belongings and goes back to the building she had broken into earlier that same day, more specifically to the apartment she had quickly abandoned after finding someone there. That someone, in fact, is the body of the owner, who has died by suicide. Despite the circumstances, Kasia decides to occupy the apartment and investigate who the man was. At first, her motivation is pragmatic and opportunistic: she assumes the identity of the deceased’s partner and attempts to claim his life insurance. However, as she learns about his memories, relationships, and secrets, Kasia begins to develop a relationship with someone she never knew.
This shift is what allows the film to engage more interestingly with its own opening scene. Early on, a neighbor says that she cannot keep track of the life of the person who lives next door. What might have been merely a comment about the distance between individuals who share the same urban space ultimately becomes a key to understanding the entire narrative and Dębowski’s ambition. The film begins to investigate the possibility of solidarity and community beneath the individualism of survival in big cities. Kasia visits the deceased man’s mother, then his sister, and later his ex-wife. Each encounter reveals another fragment of the life she had stumbled upon, but also demonstrates what happens when we begin to care about another person not materially, but humanly.
The title therefore acquires a broader meaning. Rather than simply referring to what Kasia steals, it comes to encompass memories, relationships, pain, and everything each person carries without others necessarily knowing. The sensitivity of the narrative lies in the idea that solidarity should function as a protective fabric beneath society, capable of preventing people from disappearing inside their own apartments without anyone noticing what lies behind those final walls.
In this sense, the production design by Maja Pawlikowska-Kobylińska and Magdalena Marszałek transforms the interiors into small extensions of the characters, revealing different ways of living, hiding, and relating to others. Kasia spends most of the film entering these spaces in search of goods and valuables. Gradually, however, her relationship with those same environments changes, and instead of seeing them merely as treasure troves of objects to be pawned, she begins to be invited into them, not simply to break in, but to listen to people’s stories and meet those who inhabit them.
The film also gains strength precisely because it does not try to turn its protagonist into a mere victim of reality. Kasia steals, lies, and appropriates the identity of someone who has died. Even when she begins to establish some form of relationship with the deceased’s relatives, we retain the awareness that everything originated in fraud, and we never feel entirely certain that everything will turn out well. There is a kind of (dis)trust in what Kasia reveals through her gestures, behavior, and impulses, and that gives her greater complexity.
But the film also contains a feminist dimension that, for me, ends up competing with its socioeconomic theme—not that the two are antagonistic. Kasia’s circumstances are determined, to a significant extent, by her husband, by the dynamics of emotional abuse, and by the conditions that led her to live the way she does. It is not difficult to perceive the human dimension of a story about a woman trapped in a relationship that restricts her autonomy and who must relearn how to exist when that man disappears, even if he remains in the shadows. This layer, while compatible with the film’s discussion of solidarity, particularly through the idea of sisterhood, sometimes divides its attention in ways that are not entirely organic.
Still, there is something effective in the way the film builds relationships between people who, at first glance, should have nothing in common. Kasia approaches people through a lie, but creates an opportunity for that fractured family to forgive one another. This redeems the character even when we do not necessarily sympathize with her, and it does so naturally, because her journey is not that of a woman who suddenly becomes virtuous, but of someone who, for the first time, discovers that she is capable of living on her own and what solidarity actually means.
What Belongs to Others is a realistic and feminist social drama that finds its strength when it becomes a film about people. The film might have been stronger had its discussion of the female condition not competed quite so much with this central idea, but its ability to transform crimes into opportunities for a new beginning and impersonal properties into spaces of humanity and intimacy is undeniably sensitive. Perhaps people are not really interested in remaining alone after all; maybe they have simply forgotten that they can rely on one another.
The film is part of the Orizzonti section of the 2026 Venice Film Festival.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.
