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A Mais Doce

Classificado como 3 de 5

La Más Dulce

2026

113 minutos

Classificado como 3 de 5

Diretor: Laïla Marrakchi

A exploração do trabalho e a força da solidariedade feminina

Livremente inspirado em fatos, A Mais Doce, da atriz e diretora Laïla Marrakchi, parte de uma realidade que não deveria surpreender nenhum brasileiro que acompanha as notícias sobre trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão. A diferença é que, neste caso, as pessoas exploradas são mulheres marroquinas que deixam seu país com a esperança de ganhar dinheiro na Espanha a fim de sustentar suas famílias em seus países de origem, mas descobrem que a realidade do trabalho está distante das promessas que as levaram até ali. O filme transforma essa experiência de vida em uma denúncia social que, a partir das histórias de cada personagem, examina a exploração da mão de obra imigrante, o lugar da mulher em sociedades patriarcais – onde quer que estejam – e a sororide na luta coletiva.

O roteiro escrito a seis mãos é protagonizado por Hasna (Nisrin Erradi), uma ex-campeã de taekwondo que deixa o Marrocos em busca de uma oportunidade na Espanha. Ela deixa para trás o filho, a condenação judicial por crime de adultério e a pena cumprida de meses. Sua viagem é uma tentativa de recomeço, de se afastar de um passado que continua determinando suas possibilidades – que sabemos que irá retornar para assombrá-la – e de construir uma existência na qual possa ter controle sobre o próprio destino.

Hasna se junta a outras mulheres marroquinas que trabalham na colheita de morangos, na Andaluzia. A atividade exige dela esforço físico em condições precárias, mas isso não parece abalá-la, confiante de que sua determinação e seu preparo atlético bastarão para prosperar naquele mercado de trabalho. Pobre Hasna, acredita que quanto mais caixas coletar, mais dinheiro receberá. Essa ilusão de meritocracia desaparece diante da subordinação aos homens que cuidam do campo e da vulnerabilidade dessas trabalhadores. Além da remuneração abaixo do prometido, Hasna precisa pagar para utilizar serviços básicos, como água e alojamento. O seu ambiente de trabalho também é ameaçado pelo assédio dos homens que ocupam posições de autoridade. Para além da exploração do trabalhador, o controle sobre seus corpos e a privação de condições dignas de vida e trabalho transformam as mulheres em corpos vulneráveis.

Marrakchi demonstra como essa violência se incorpora à rotina. As mulheres precisam urinar onde estão porque não tem intervalos, banham-se em banheiros sem divisórias, sujeitos à entrada de homens que podem surgir a qualquer momento. O calor é sufocante, especialmente detrás da estufa, e a possibilidade de contestar as condições impostas é praticamente inexistente, limitada pela barreira idiomática. Além do mais, denunciar abusos pode significar perder a fonte de renda disponível, então é melhor submeter-se a eles, até o limite do insuportável.

O conflito ganha uma dimensão ainda mais dolorosa quando Hasna abandona a amiga Meriem, submetida a estupros recorrentes. A decisão introduz uma contradição fundamental na construção da protagonista, dividida entre o individualismo e o coletivismo. Ela até pode ser forte e combativa, mas as outras ao seu lado não são, e a partir de certo momento, Hasna deverá decidir entre calar-se para manter o trabalho com que sustenta o filho, empreender criando uma fonte de renda comercializando cartões telefônicos, ou se juntar à solidariedade feminina em um cenário em que as circunstâncias mudam radicalmente.

A narrativa atravessa a luta individual para a consciência de uma luta compartilhada, mostrando como o capitalismo contemporâneo pode se beneficiar da vulnerabilidade de pessoas que, desunidas, são mais fracas do que se estivessem juntas. Ao mesmo tempo, os esforços da diretora estão em revelar as condições em que foram colhidos os morangos que consumimos inocentemente, para expor como também temos alguma responsabilidade sobre o problema. A cadeia produtiva oculta os corpos, os conflitos e as violações dos direitos humanos e trabalhista que colocam o alimento na prateleira do supermercado; Marrakchi restitui visibilidade ao todo, mesmo que de uma forma um tanto burocrática e previsível.

Nisrin Erradi confere a Hasna uma energia que combina a determinação de quem está acostumada a lutar com a indignação de quem começa a enxergar a extensão dos abusos a que está submetida. Sua presença sustenta a revolta que atravessa o filme. Enquanto isso, Hajar Graigaa carrega, no semblante, a dor dos abusos sofridos, e Hind Braik introduz momentos de humor e leveza que impedem que as relações sejam reduzidas ao sofrimento comunitário. Mas de volta à burocracia, a sucessão de abusos, ameaças ou represálias segue um percurso que conhecemos de outras histórias sobre exploração do trabalho e sociedades patriarcais. A indignação não é atenuada, só que a indignação por ela própria não basta se não estiver acompanhada por uma boa construção dramática.

O veredito da ação movida pela advogada vivida por Itsaso Arana surge, nesse sentido, como alguma possibilidade de surpresa para nós. Não podemos antecipar a resposta porque a ficção e realidade podem divergir em casos iguais a esse. Essas mulheres terão suas vozes ouvidas ou continuarão sendo tratadas como partes descartáveis de uma economia que depende de sua vulnerabilidade? Ainda assim, o julgamento não elimina a sensação de que a narrativa poderia encontrar caminhos outros para conduzir Hasna a tal confronto.

Histórias como essa são revoltantes, mexem com o brio do espectador e revelam mecanismos de exploração capitalisa persistente sob formas particulares, mesmo naquelas sociedades ditas mais desenvolvidas. Isso não tira da diretora a responsabilidade de conferir algo a mais à narrativa, sob pena de apenas ilustrar, em vez de desafiar. O filme é politicamente pertinente, mas nem sempre encontre uma forma mais instigante para se desenvolver.

O filme foi exibido na Mostra Expectativa do Festival do Rio 2026.

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