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Ink

Classificado como 1 de 5

Ink

2026

116 minutos

Classificado como 1 de 5

Diretor: Danny Boyle

Danny Boyle transforma a decadência do jornalismo em espetáculo

A esta altura do campeonato, é difícil imaginar que Danny Boyle, que tem uma identidade estilística tão marcante, abandone as suas características apenas para atender aos anseios de um crítico de cinema no nordeste brasileiro. Goste ou não de Danny Boyle, o diretor constrói uma carreira na qual o estilo acompanha e às vezes se impõe à substância das histórias que conta. São cortes rápidos, ângulos inusitados e construções visuais que nem sempre contribuem para o desenvolvimento narrativo, mas ainda fascinam o olhar de alguns, elementos recorrentes de seu cinema. A questão é que o Boyle de hoje não é mais o mesmo de Cova Rasa, Trainspotting, Extermínio ou Sunshine. E Ink me parece mais um exemplo de como as suas escolhas comprometem uma história que, por si só, já ofereceria material suficiente para um filme interessante.

Escrito por James Graham, o longa acompanha a ascensão do jornalismo sensacionalista britânico a partir das transformações do jornal The Sun, em 1969. Sob a direção de Larry Lamb (Jack O’Connell), contratado pelo magnata Rupert Murdoch (Guy Pearce) para assumir a frente de uma publicação decadente, o periódico encontra no entretenimento popular, nas manchetes sensacionalistas e na exploração de assuntos capazes de despertar a curiosidade dos leitores uma fórmula para ampliar suas vendas e ultrapassar a concorrência do The Daily Mirror. O que começa como uma estratégia comercial para conquistar um público maior acaba ajudando a transformar a própria natureza do jornalismo, privilegiando o impacto em detrimento de princípios que deveriam nortear a nobre profissão.

É uma história oportuna; vivemos em uma época na qual lucros, números, alcance e engajamento justificam quase qualquer decisão, enquanto o pensamento crítico, a responsabilidade intelectual e a solidariedade cedem espaço à necessidade de produzir resultados cada vez maiores nem que alienem valores inegociáveis. Ink poderia ser um filme contundente sobre como decisões aparentemente pragmáticas, tomadas em nome da sobrevivência de um negócio, acabam produzindo consequências que ultrapassam em muito os interesses iniciais. Afinal, o tabloide não apenas vende jornais, mas ajuda a criar uma relação entre informação e entretenimento que contribuiria para transformar a maneira como o público consome notícias. E só o fato de usar o verbo consumir é uma parte desse problema. Mas Boyle torna essa transformação em um espetáculo em vez de examinar suas implicações morais além de uma crítica rasa que nem um pires.

O filme tem a seu favor Jack O’Connell, um dos atores de que mais gosto no cinema contemporâneo. Existe nele uma capacidade de incorporar o homem comum, combinado com uma imprevisibilidade mefistotélica. Seus personagens costumam transmitir um misto de astúcia, inteligência e ambiguidade que impede o espectador de antecipar as suas reações. Embora o seu Larry Lamb seja um dos mais previsíveis de sua carreira, já que apenas agirá pensando em ultrapassar o The Daily Mirror – uma decisão que Boyle justifica em uma premiação jornalística, que termina levando o personagem ao bullying que sofria nos tempos de colégios.

Aliás, Boyle nos convida a torcer pelos vilões. E não há nada de errado em acompanhar personagens moralmente condenáveis, nem em torcer para eles em alguma capacidade. A questão é o que o filme faz com isso. Lamb e sua equipe rebaixam o nível da cobertura a fim de ampliar as vendas, favorecendo o sensacionalismo, a exploração de crimes e a atuação dos paparazzi. Não se trata simplesmente de incorporar elementos populares nos jornais diários, como futebol, televisão, horóscopos ou o apelo do corpo nu feminino. O problema está na degradação de princípios fundamentais do jornalismo e na exploração dos aspectos mais perversos da curiosidade humana.

Mais grave ainda é a maneira como Boyle constrói Rupert Murdoch. Interpretado por Guy Pearce, o magnata recebe uma dimensão humana excessivamente generosa. Em alguns momentos, ele parece funcionar como uma espécie de bússola moral para a narrativa, sobretudo quando o desgosto inicial se torna desagravo, que se torna insatisfação e irritação com a maneira como Lamb conduz seu jornal. O homem que estava preocupado com os resultados financeiros começa a se incomodar com as consequências da estratégia que ajudou a colocar em prática. É uma escolha problemática quando pensamos na trajetória do magnata, que construiu um império de comunicação de influência política, incluindo a Fox News, emissora frequentemente criticada pela disseminação de desinformação.

Larry, por sua vez, passa a ser apresentado como o pior dos piores – afinal até supera Murdoch em termos de desumanidade. Com o passar da narrativa, Larry afugente os aliados mais próximos. Claire Foy é a expoente desse movimento, uma editora afetiva, sexual e historicamente associada a ele. O adultério de ambos parece funcionar como mais um instrumento para plantar a sua imoralidade: o homem que compromete a sua família só poderia negociar os princípios profissionais que havia professado. Ao menos, para Boyle, a matemática é essa.

O resultado é uma lógica que enfraquece qualquer crítica que o diretor tenha desejado fazer. Algo agravado pelas decisões visuais de Boyle. Ele recorre a uma linguagem característica capaz de manter a narrativa permanentemente estimulante. Em momentos pontuais, a inteligência artificial é usada para recriar Margaret Thatcher ou para animar uma fotografia – uma contravenção considerado todo o filme. Porque Boyle sabe muito bem como tornar a experiência atraente. A encenação tem energia, a montagem conduz o espectador de uma situação à seguinte e os conflitos são estruturados para que continuemos interessados no destino daqueles que participam da transformação. O filme compreende os mecanismos de sedução que fizeram do The Sun um sucesso comercial, mas parece incapaz de estabelecer uma distância crítica suficiente em relação a eles…

… pelo contrário, ele os reproduz. É a contradição que mais me incomoda. Ao contar a história de homens que perceberam ser possível vender mais jornais explorando a curiosidade e os impulsos menos nobres dos leitores, Boyle constrói um produto cinematográfico que também depende da sedução e do entretenimento para manter o público engajado. A forma é tão eficiente que, por vezes, nos impede de questionar a substância. Sabemos que estamos acompanhando personagens condenáveis. Sabemos, também, que o sucesso deles contribuirá para colocar o jornalismo em um de seus pontos mais baixos. Ainda assim, a experiência é suficientemente envolvente para nos fazer aceitar o percurso sem qualquer resistência imediata.

Ink reproduz, em alguma medida, aquilo que critica. Larry Lamb transforma o jornalismo em mercadoria, embalando conteúdos cada vez mais apelativos em papel caro para conquistar leitores. Boyle, por sua vez, embala uma história sobre a degradação do jornalismo em uma forma visualmente atraente. O problema não é vender entretenimento; é fazer isso enquanto se apresenta uma história sobre os danos provocados pela submissão de tudo à lógica das vendas. Para mim, um dos filmes mais reprováveis do ano.

O filme foi exibido na Mostra Panorama Mundial do Festival do Rio 2026.

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