Aumentando seu amor pelo cinema a cada crítica

Your Mother, Your Mother, Your Mother

Classificado como 4.5 de 5

Your Mother, Your Mother, Your Mother

2026

112 min

Classificado como 4.5 de 5

Diretor: Bassam Tariq

Segundo as tradições do Islã, a figura materna ocupa um espaço três vezes mais significativo do que o pai nas composições familiares e na formação da sociedade. Isto porque, há três fases de sacrifício e altruísmo no que diz respeito aos filhos que cabem somente a elas: a gestação, ou seja, o ato de carregar a criança no ventre; o parto, acompanhado de suas dores; e, por fim, a amamentação natural, proveniente do seio da mulher que gesta – propiciadora, quando possível de se concretizar, de uma conexão que jamais será compreendida pela figura paterna. 

Esse ensinamento encontra-se materializado nos chamados Hadiths, registros escritos das palavras, ações e costumes do profeta Maomé. Nesse sentido, um deles relata: 

Um homem aproximou-se do Profeta Maomé e perguntou:
— “Ó Mensageiro de Deus, quem é a pessoa que mais merece minha boa companhia e respeito?”

O Profeta respondeu: — “Sua mãe.”

O homem perguntou: — “E depois, quem?”

O Profeta respondeu: — “Sua mãe.”

O homem perguntou novamente: — “E depois, quem?”

O Profeta respondeu: — “Sua mãe.”

O homem perguntou mais uma vez: — “E depois, quem?”

O Profeta respondeu: — “Seu pai.”

Quando falta a mãe, essas três etapas fundamentais à vida, que lhe asseguram um respeito prioritário ao do pai, não podem ser delegadas em seus estados como narrados pelo Hadith. Your Mother, Your Mother, Your Mother, novo filme de Bassam Tariq após deixar o cargo de diretor da recriação de Blade pela Marvel, é movido, justamente, pela urgência de seu protagonista, Latif (Mahershala Ali), um muçulmano devoto, pai de três filhos e recém-viúvo, de suprir a necessidade vital de sua filha mais nova que precisa de leite materno. O pormenor é que estamos diante de um filme de ação e Latif é um matador de aluguel, e esse movimento de busca por essa nutrição torna-se o motor de uma escalada de acontecimentos enredados que o reconduzem ao ofício do qual a viuvez o fizera afastar-se. 

A luta pela sobrevivência adquire, nesse contexto – a exemplo das três funções maternas do Hadith -, um triplo sentido. O leite materno é o alimento crucial de cuja administração depende a vida do bebê. Para obtê-lo, contudo, Latif vê-se forçado a lutar também pela própria sobrevivência e, via de consequência, pela de seus entes queridos, ameaçados por seu inevitável retorno aos serviços prestados ao seu então suposto amigo e antigo chefe, Mike (Laith Nakli). Essa dimensão de sobrevivência não é, todavia, apenas material: o conflito ganha contornos espirituais e a jornada física torna-se existencial à medida que o protagonista passa a questionar a própria fé e as formas de exercê-la num mundo em que o extremismo ganha força e a religiosidade é transposta pela violência. 

A contenda religiosa é, justamente, o mote do trabalho para o qual Latif é contratado – aquele que deveria ser seu último serviço antes de se dedicar plenamente à família. A missão consiste em assassinar o Pastor Kwan (John Cho), um líder evangélico que afirma ter morrido e ressuscitado pela força da oração materna. Kwan comanda um grupo violento empenhado em expurgar a prostituição e a pornografia do mundo, e sua morte é encomendada para proteger o sobrinho de Mike, o jovem Hatty (Abubakr Ali), perseguido pelo religioso exatamente por produzir conteúdo adulto. 

Por meio do cinema de ação, Bassam Tariq aborda o extremismo religioso com sofisticação, já que a fé extremada não surge diretamente como mero pretexto para a construção do gênero. Na verdade, o diretor parece brincar com a subversão de convenções marcantes – como o maniqueísmo rígido, a obediência ao movimento constante ou a pouca atenção aos dilemas que não demandam intensidade física. Em Your Mother, Your Mother, Your Mother, nem mesmo o protagonista parece ser plenamente bom ou plenamente mau, na medida em que essas fronteiras são testadas a cada escolha e ação dos personagens. 

Tal como o próprio matador de aluguel, o espectador não tem certeza sobre quem realmente merece morrer – ou se há, em verdade, qualquer justificativa para isso. A exceção fica a cargo das crianças e daqueles que permanecem alheios ao mundo em que vidas são encomendadas, como Abdul Malik (Giancarlo Esposito), o imã da mesquita frequentada por Latif e amigo próximo de sua família. 

John Cho e Mahershala Ali em Your Mother, Your Mother, Your Mother (Imagem: divulgação)

Your Mother, Your Mother, Your Mother se estabelece, ainda, como um filme de ação que se dedica muito mais à contemplação dos dilemas existenciais e às incertezas espirituais do que à violência gratuita. Os confrontos, quando ocorrem, dão-se por questões de sobrevivência, e não como mera execução de contratos. Contrariando mais uma vez as convenções do gênero, Tariq não banaliza a morte, fazendo com que o espectador sinta o seu peso – embora guarde espaço para que, no clímax, o matador de aluguel, um verdadeiro samurai que se recusa a usar armas de fogo, exiba suas habilidades em uma luta corporal contra um grupo de extremistas evangélicos. 

O cineasta permite, ainda, que o afeto das relações humanas se manifestem a ponto de ocuparem um espaço emocional importante da obra, noutra subversão do gênero. Não se trata de limitar as emoções ao núcleo familiar, mas de fazer de seu protagonista um homem empático pelas pessoas que cruzam seu caminho, por mais moralmente duvidosas que sejam suas condutas. Your Mother, Your Mother, Your Mother humaniza os desumanizados e indignos perante a sociedade.

Se há um vilão a ser apontado, este é o extremismo religioso. As contradições entre a fé genuína – como busca de sentido para a vida – e o uso da violência e da perseguição ao próximo para propagá-la inquietam Latif e passam a nos inquietar, à medida que se consolida a percepção de que é este, quiçá, o verdadeiro inimigo a ser combatido. 

Se a figura ameaçadora do Pastor Kwan (Cho está fascinante no papel), que prega um falso discurso de amor empunhando metralhadoras, poderia ser o vilão óbvio a ser combatido, o encontro do protagonista com um resquício de humanidade no antagonista retira-nos da zona de conforto, afastando a obra de qualquer dilema moral de simples solução. O extremismo anula o ser humano. Mas o ser humano ainda está ali. 

Há de se mencionar, por fim, que muito do que se disse aqui a respeito dos dilemas existenciais do protagonista só pode ser sentido mais profundamente em razão, sobretudo, do trabalho estupendo de Mahershala Ali. O ator constrói a humanidade de Latif pela expressão do olhar e pelos silêncios, transmitindo, na mesma medida, sua implacabilidade ameaçadora quando necessário. O caráter humano de seu matador de aluguel – uma figura corpulenta e muito consciente da própria força – reside, principalmente, em suas inseguranças, tanto diante da fé quanto no exercício do papel paterno. 

Fato é que, em Your Mother, Your Mother, Your Mother, a figura materna não apenas é a referência teológica do Hadith, mas o motor afetivo e ético que reconfigura o próprio pensamento extremista: a preservação da vida e da fé, nesse sentido, reside na capacidade irrenunciável de cuidar do outro. Nessa desconstrução do gênero, o vilão deixa de ser o indivíduo, e a centralidade materna emerge como a única salvaguarda capaz de resistir à barbárie para lembrar que, onde quer que haja um gesto de cuidado, a humanidade ainda prevalece. 

Compartilhe

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar de:

Críticas
Natalia Bocanera

Apolo 

“Tua existência trouxe cura para nossas crianças feridas.” 

Rolar para cima