Paloma Schneideman dirige a história de amadurecimento de uma adolescente em busca de pertencimento.
Após assistir a Big Girls Don’t Cry, fiquei pensando no que há de tão interessante nas histórias de amadurecimento e perda da inocência, a ponto de atrair tanto a atenção de artistas e espectadores. Acredito que a maioria das histórias dramáticas é, em alguma medida, também uma história de amadurecimento. São histórias em que um personagem, a despeito da idade, diante de um conflito dramático ou existencial, desenvolve capacidades para construir a própria identidade ou o próprio caminho. Afinal, a identidade não é algo acabado, mas um processo de transformação que nos acompanha por toda a vida. Mesmo assim, são as crianças e adolescentes que atravessam essa etapa de descobertas com mudanças físicas, bem como emocionais mais evidentes.
No roteiro, acompanhamos Sid, uma adolescente de 14 anos que, durante um verão na Nova Zelândia rural, tenta descobrir a que lugar pertence. O filme tem algo de autobiográfico, não pela trajetória particular de Sid, mas pelo recorte histórico. 2006, quando a internet começava a transformar de maneira significativa as relações humanas, os processos de formação da identidade e as redes de amigos, e aplicativos de bate-papo e fóruns de discussão aproximavam jovens e adultos fisicamente distantes – que talvez devessem continuar distantes – e as possibilidades de encontro e experimentação, enquanto ampliavam as situações de risco.
Sid não é apenas vítima dessas circunstâncias; é também agente delas. Amparada pela distância e pelo anonimato que a internet parece oferecer, mente sobre a própria idade e finge ser alguém que não é. Essa prática desenvolvida nas conversas virtuais orienta as suas relações presenciais, enquanto procura descobrir como ser aceita por um grupo de jovens mais velhos, embora não necessariamente mais maduros. Imitar os outros torna-se uma maneira de ensaiar uma identidade, mas também um modo de esconder a insegurança de habitar a própria pele. Sid quer ser reconhecida e desejada, embora ainda não saiba distinguir o que realmente quer daquilo que imagina precisar oferecer para conquistar o afeto alheio.
O espectador, entretanto, não é enganado pela personagem. Por trás da máscara, percebemos a jovem insegura que ela ainda é. Talvez alguns de seus colegas também a enxerguem dessa maneira, pois alguns gestos denunciam o desconforto por trás da desenvoltura que tenta demonstrar. Há o olhar vacilante quando seu pai é confundido e humilhado por alguns desses jovens; há o gesto de puxar o capuz do moletom sobre a cabeça, como se pudesse esconder-se de si mesma e ser outra pessoa; há, ainda, as mãos inquietas que contradizem a aparente segurança com que atravessa o corredor de uma festa. Sua insegurança transforma-se em ansiedade social, e, quando está sozinha, ela mal parece confortável com a própria companhia.
Paloma dirige essa história de amadurecimento sob o sol de um verão neozelandês, mas escolhe uma fotografia lavada, de tonalidades azuladas, que parece retirar das imagens a parte calorosa de sua vitalidade. A impressão é a de estarmos submersos na mesma água em que Sid flutua à deriva, ou talvez no interior de um ventre, prestes a despertar para uma vida que ainda não sabemos como atravessar. A paisagem ensolarada contrasta com a incerteza da personagem e dá ao filme uma atmosfera suspensa, como se ela estivesse entre duas etapas da vida, e o trabalho da fotógrafa de María Ínes Manchego expressa essa ambiguidade com bastante segurança.
Essa fotografia desbotada encontra correspondência na atuação de Ani Palmer. Seu rosto blasé parece, à primeira vista, um quadro em branco sobre o qual projetamos as inadequações e os desejos que Sid não sabe expressar. Mas essa aparente neutralidade não significa ausência de sentimento. Pelo contrário, o rosto da atriz deixa transparecer o trabalho constante de alguém que tenta parecer à vontade, ainda que esteja se remoendo por dentro. Sid já é consciente do olhar alheio, mas ainda não dispõe de linguagem ou de experiência suficientes para compreender tudo aquilo que sente.
Sua relação com o pai e com a irmã mais velha reforça essa fragilidade. A irmã parece madura o bastante para compreender a situação, mas compreender não significa saber a melhor maneira de intervir. Sid continua procurando fora de si os modelos que lhe permitam construir uma identidade, e essa procura tende a conduzi-la a situações de risco. A fronteira entre consentimento e não consentimento aparece como um terreno cinzento, determinado pelo meio social. É possível chamar de consentimento um “sim” pronunciado sob a promessa de ser aceita? O que significa concordar quando a recusa parece ameaçar a possibilidade de ser desejada, incluída ou reconhecida pelo grupo? E até que ponto Sid consegue distinguir o próprio desejo daquele que aprendeu a representar? Deste modo, Big Girls Don’t Cry ainda dialoga com produções contemporâneas que tratam do consentimento de uma maneira bem mais complexa: How to have sex e Chicas Tristes são exemplos em que a trajetória de adolescentes é alterada por situações no limiar do abuso, e com Sid não é diferente, apesar de a diretora também compreender a insegurança social do homem na mesma situação.
O amadurecimento aparece, então, não como uma “simples” descoberta da sexualidade, mas como perda de uma maneira inocente de encarar e atravessar a vida. Fiquei preocupado com o que Sid estaria disposta a negociar ou sacrificar para amadurecer, e acho que a minha preocupação é uma comprovação do êxito do projeto. Às vezes, o que se aprende é apenas a esconder melhor a própria insegurança. E é dolorosa a tentativa de representar um papel antes de compreender a própria identidade. Sid quer pertencer, e esse desejo é perfeitamente reconhecível – todos temos, em alguma medida -, mas a necessidade de aceitação pode fazer com que ela confunda intimidade com aprovação e desejo com obrigação. A narrativa não precisa transformar a personagem em uma vítima para reconhecer sua vulnerabilidade, assim como não precisa condená-la por suas mentiras para mostrar as consequências delas, e a ambiguidade enriquece uma discussão que poderia ser simplória. Nessa tensão, e não em uma resposta moral imediata, a narrativa encontra sua complexidade.
Big Girls Don’t Cry apresenta um obstáculo que Sid precisará superar, uma experiência capaz de alterar a percepção que tem de si mesma e dos outros. A perda da inocência, aqui, não precisa significar o abandono de uma suposta pureza sexual, mas o reconhecimento de que o mundo não corresponde necessariamente às imagens que construímos dele, e mesmo de que ser aceito não é o mesmo que ser compreendido. Amadurecer não significa deixar de sentir medo ou insegurança, mas aprender a reconhecer os limites que não estamos dispostos a ultrapassar para agradar aos outros. A identidade continua em transformação, e ninguém chega à vida adulta com todas as respostas. O que muda é a capacidade de perceber quando a tentativa de pertencer exige que neguemos partes de nós mesmos. O filme de Paloma encontra sua força nessa contradição: Sid procura nos outros uma maneira de descobrir quem é, mas corre o risco de se perder ao tentar se tornar aquilo que imagina que eles desejam. E talvez a passagem para a vida adulta comece justamente quando ela puder deixar de fingir para se sentir confortável na própria pele.

Paloma Schneideman Directs a Coming-of-Age Story About a Teenage Girl Searching for a Sense of Belonging
After watching Big Girls Don’t Cry, I found myself wondering what makes coming-of-age stories and tales of lost innocence so compelling that they attract so much attention from artists and audiences alike. I believe most dramatic stories are, to some extent, also coming-of-age stories. They follow characters who, regardless of age, face a dramatic or existential conflict and develop the ability to forge their own identity or find their own path. After all, identity is not something fixed or complete, but an ongoing process of transformation that accompanies us throughout our lives. Even so, it is children and adolescents who go through this stage of discovery with the most evident physical and emotional changes.
The story follows Sid, a 14-year-old girl who, during a summer in rural New Zealand, tries to figure out where she belongs. The film feels somewhat autobiographical, not because of Sid’s particular journey, but because of its historical setting. In 2006, the internet was beginning to significantly transform human relationships, the process of identity formation, and friendship networks. Chat apps and online forums brought together young people and adults who were physically distant—and perhaps should have remained so—creating opportunities for encounters and experimentation while also increasing the risks involved.
Sid is not merely a victim of these circumstances; she is also an active participant in them. Shielded by the distance and anonymity the internet seems to offer, she lies about her age and pretends to be someone she is not. The behavior she develops in virtual conversations shapes her face-to-face relationships as well, as she tries to figure out how to be accepted by a group of older young people, who are not necessarily more mature. Imitating others becomes a way of rehearsing an identity, but also of concealing the insecurity of inhabiting her own skin. Sid wants to be acknowledged and desired, even though she still cannot distinguish what she genuinely wants from what she imagines she must offer to earn other people’s affection.
The audience, however, is not fooled by the character. Behind the mask, we see the insecure girl she still is. Perhaps some of her peers see her that way too, since certain gestures betray the discomfort beneath the confidence she tries to project. There is the hesitant look when her father is mistaken for someone else and humiliated by some of these young people; the gesture of pulling her hoodie over her head, as though she could hide from herself and become someone else; and the restless hands that contradict the apparent confidence with which she walks through a party. Her insecurity turns into social anxiety, and when she is alone, she barely seems comfortable in her own company.
Paloma directs this coming-of-age story under the sun of a New Zealand summer, yet she chooses a washed-out, bluish cinematographic palette that seems to drain the images of their warmth and vitality. It feels as though we are submerged in the same water in which Sid drifts aimlessly, or perhaps inside a womb, on the verge of awakening to a life we still do not know how to navigate. The sunlit landscape contrasts with the character’s uncertainty, giving the film a suspended atmosphere, as though she were caught between two stages of life. Cinematographer María Inés Manchego captures this ambiguity with considerable assurance.
The faded cinematography finds a counterpart in Ani Palmer’s performance. At first glance, her blasé expression seems like a blank canvas onto which we project the insecurities and desires Sid cannot articulate. But this apparent neutrality does not mean an absence of feeling. On the contrary, the actress’s face reveals the constant effort of someone trying to appear at ease while inwardly wrestling with herself. Sid is already conscious of how others see her, but she still lacks the language and experience necessary to understand everything she feels.
Her relationships with her father and older sister reinforce this fragility. Her sister seems mature enough to understand the situation, but understanding it does not necessarily mean knowing how best to intervene. Sid continues to look outside herself for models that might help her construct an identity, and this search tends to lead her into risky situations. The boundary between consent and non-consent emerges as a gray area shaped by the social environment. Can we call a “yes” consent when it is spoken in exchange for the promise of acceptance? What does it mean to agree when refusing seems to threaten the possibility of being desired, included, or recognized by a group? And to what extent can Sid distinguish her own desires from those she has learned to perform? In this respect, Big Girls Don’t Cry resonates with more recent films that approach consent in far more complex terms. How to Have Sex and Chicas Tristes, for instance, portray teenage girls whose lives are altered by situations bordering on abuse. Sid’s experience is no different, although the director also acknowledges the social insecurity of the man involved in the same situation.
Coming of age, then, is not simply a matter of discovering one’s sexuality, but of losing an innocent way of seeing and navigating life. I found myself worrying about what Sid might be willing to bargain away or sacrifice in order to grow up, and I believe that concern is evidence of the film’s success. Sometimes, all we learn is how to conceal our insecurities more effectively. There is something painful about trying to play a role before understanding one’s own identity. Sid wants to belong, a desire we can all recognize to some degree, but the need for acceptance can lead her to confuse intimacy with approval and desire with obligation. The narrative does not need to turn her into a victim to acknowledge her vulnerability, nor does it need to condemn her for her lies to show their consequences. This ambiguity enriches a discussion that could otherwise have been simplistic. It is within this tension, rather than in an immediate moral judgment, that the story finds its complexity.
Big Girls Don’t Cry presents Sid with an obstacle she must overcome, an experience capable of changing how she sees herself and others. Here, the loss of innocence does not have to mean abandoning some presumed state of sexual purity, but rather recognizing that the world does not necessarily correspond to the images we construct of it, and that being accepted is not the same as being understood. Growing up does not mean ceasing to feel fear or insecurity, but learning to recognize the boundaries we are unwilling to cross to please others. Identity remains in flux, and no one reaches adulthood with all the answers. What changes is our ability to recognize when the attempt to belong demands that we deny parts of ourselves. Paloma’s film finds its strength in this contradiction: Sid looks to others to discover who she is, but risks losing herself in the process of becoming the person she imagines they want her to be. Perhaps the transition to adulthood begins precisely when she can stop pretending and become comfortable in her own skin.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


