A rave do fim do mundo no deserto marroquino
Em árabe, Sirât significa caminho ou estrada. Dentro da religião islâmica, é uma ponte que separa o paraíso do inferno, é um purgatório que precede o julgamento final, e, na obra produzida por Pedro Almodóvar, é um não lugar no deserto marroquino onde um pai (Sergi López) busca a sua filha desaparecida há meses entre os corpos em transe na rave, às vésperas do apocalipse, representado pela guerra deflagrada dentro da região e sobre a qual nada sabemos precisamente.
Não é somente o contexto sociopolítico acerca do qual somos ignorantes, também não sabemos por que a filha abandonou o lar, ou qual a atuação da família e de autoridades a fim de encontrá-la, ou quem são aquelas pessoas estranhas, que rumam em direção à festa prometida, e que decidem guiar pai e filho como se fossem o Virgílio de Dante da Divina Comédia. Sirât convida a uma experiência de transe tal como a da rave montada a muitas mãos. Naturalmente, não dá para comparar com a experiência transcendental e sensorial da festa, apesar de a desorientação provocada por informações sonegadas, ou por cenários repetitivos, ou mesmo por eventos subsequentes obriguem-nos a agarrar apenas o que temos diante de nós: o agora, uns aos outros, aí está a força da narrativa.
Nesse road movie espiritual ou transcendental, o estado de emergência decretado pelo governo de Marrocos, e no qual somente os cidadãos europeus têm direito à escolta, o que quer que isso signifique, encerra a rave e impele os personagens para o interior do deserto, onde não há viva alma nem civilização. Não é à toa que a minha amiga Natália Bocanera apelidou o filme de “Mad Max da A24” – um filme igualmente apocalíptico, em que o que empurra os personagens à estrada da fúria é menos importante do que o que a estrada oferecerá em retorno. Uma rádio até noticia a guerra e, brevemente, nós temos a oportunidade de enxergar, na televisão, pessoas de branco ao redor do que me pareceu um cubo, que não é diferente do que o paredão de caixas de som montadas no meio do nada. Portanto, o transe está associado à condição humana, ao desejo de fugir da realidade amarga rumo à espiritualidade infinita, conduzido pela música, religião e gasolina.

No trajeto de um ponto para outro, em que não há nenhuma promessa de alcançar um destino desejado, os personagens enfrentam obstáculos, como a travessia de um rio no deserto, ou a travessia ao redor de uma montanha por uma estrada sinuosa, ou mesmo um campo minado, que relaciona os obstáculos naturais aos plantados por homens. A cada obstáculo superado, ou a cada baixa na estrada — algumas delas surpreendentes e imprevisíveis, a ponto de suspender momentaneamente o ritmo do coração —, Luís pode estar mais próximo ou distante da filha, não apenas materialmente, mas também espiritualmente.
O diretor Oliver Laxe tem uma relação com Cannes desde sua estreia com You Are All Captains, lançado na Quinzena dos Realizadores de 2010, por que recebeu o prêmio da crítica (Fipresci), passando por Mimosas, exibido na Semana da Crítica de 2016, e pelo qual recebeu o Grande Prêmio do Júri, e mais recentemente O Que Arde, que disputou a Mostra Um Certo Olhar de 2019, na qual recebeu o Prêmio do Júri. Agora na Seleção Oficial, Laxe adultera o estilo contemplativo e naturalmente associado ao deserto com a intransigência da música eletrônica e de luzes néon. É uma relação interessante, que reforça a atmosfera de irrealidade ou, ao menos, de negação da realidade como é posta em prol de uma articulação sensível com a ação, mediada por silêncios, tempos mortos e exílio e deslocamento humanos por onde não há fronteiras, nem barreiras aparentes.
Que essa estrada seja conduzida por personalidades marginalizados na sociedade, tais como pessoas queer ou com deficiência, e cãezinhos vira-lata, reforça até sua temática religiosa em que os abandonados são aqueles convidados a essa transição, enquanto os além do deserto permanecem em um estado desconhecido de guerra permanente. Sirât é bastante conceitual e funcionaria melhor, posso presumir, se pudéssemos ingerir os mesmos alucinógenos à disposição dos personagens, mas não é a narrativa conceitual desacompanhada de estilo e essência. É a busca de um pai pela filha transformada na busca de uma individualidade e espiritualidade perdidas e redescobertas nas areias do deserto. Um cenário religioso, em um filme que é uma experiência semirreligiosa.
Sirât está na Seleção Oficial do Festival de Cannes 2025, onde recebeu o Prêmio do Júri.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.



