A faculdade de jornalismo nos ensina sobre a história da profissão, com destaque para o tempo em que as manchetes vendiam jornais à custa do sensacionalismo, não dos fatos. Também nos apresenta o código de ética que deve pautar nossas ações enquanto profissionais: compromisso com a verdade, respeito à privacidade e à dignidade das pessoas retratadas. Mas há algo além disso. Desligar ou abaixar a câmera, às vezes, é menos uma escolha ética e mais um ato de humanidade. Por mais que estejamos no afã pelo furo ou pela manchete, cabe a nós priorizarmos nossa sensibilidade como seres humanos. Um filme que trouxe esse dilema com intensidade foi Guerra Fria, estrelado por Wagner Moura, no qual uma jovem prodígio realiza seu sonho de se tornar uma grande fotojornalista à custa da própria empatia. Alguns valores deveriam ser inegociáveis.
Em seu documentário Itatira, André Luís Araújo volta seu olhar para a pequena cidade homônima no sertão cearense, coberta por um véu de medo e mistério após a morte trágica de um aluno. O que se segue é uma série de relatos sobre aparições e possessões que tomam conta da escola local, transformando a instituição em epicentro de histeria coletiva e especulações sobrenaturais. Um padre exorcista e um grupo de jornalistas são enviados para a cidade, selando seu destino como espetáculo nacional.
Antes de nos jogar no turbilhão midiático que se formou, o cineasta nos introduz aos poucos ao lugar. A câmera passeia por paisagens áridas e construções humildes, tratando a cidade não apenas como cenário, mas como personagem. Um corpo coletivo que respira, sofre e resiste. Esse tempo alongado diante das imagens, somado a uma trilha sonora soturna, induz o espectador a um estado de suspensão — um intervalo em que o real se embaralha com o simbólico. Em um desses momentos, fui capturado pela imagem de uma formiga solitária sobre uma pedra. Ao tentar atribuir sentido à cena, imaginei que, assim como aquele pequeno inseto, Itatira ficou isolada do mundo após o episódio que a expôs ao olhar faminto da grande imprensa.
Apesar da atmosfera inquietante que permeia a obra, o diretor não busca esclarecer se os eventos foram manifestações sobrenaturais ou sintomas de um trauma coletivo. Seu interesse está nas consequências: como aquilo afetou a cidade e seus moradores? Nesse sentido, o filme ganha força ao ouvir diferentes vozes — do padre que prestou assistência espiritual às crianças, a familiares com relatos emocionados, passando por um morador que registrou imagens das supostas manifestações, depois apropriadas de forma oportunista por uma equipe de reportagem que manipulou seu filho adolescente. É nesse ponto que Itatira se mostra uma crítica contundente à atuação da mídia: sensacionalista, predatória e descomprometida com o cuidado às pessoas envolvidas.

Em contraste com essa imprensa ávida por manchetes, o documentário de Araújo adota um olhar mais humano. Registros mais explícitos dos episódios são preservados apenas em áudio — um gesto ético, mas também estético. Ao sobrepor os sons das crises a imagens de um céu estrelado, ele permite que o espectador projete, imagine, complete — e assim também participe, de forma respeitosa, da experiência traumática daquelas crianças.
O problema surge quando o filme se alonga demais. Após a abordagem crítica à mídia e aos desdobramentos locais, a narrativa se perde ao acompanhar uma jovem que sonha em se tornar boxeadora. Apesar da intenção de inserir uma nota de esperança, a sequência soa deslocada e faz com que o filme perca foco e ritmo. A impressão é de que se tenta esticar a duração para cumprir o tempo mínimo de um longa-metragem — o que compromete parte do impacto construído até ali.
Essa sensação de dilatação também pode ser percebida nas imagens simbólicas do início — como as pinturas rupestres, a caverna ou a própria formiga. Ainda que provoquem interpretações alegóricas, há o risco de que parte do público as veja apenas como exercícios de estilo ou desvios para o tédio.
Itatira teria mais força num formato mais enxuto, mas ainda assim entrega uma crítica voraz ao comportamento da imprensa e um olhar afetuoso sobre uma cidade que, infelizmente, se tornou conhecida por seu momento mais sombrio.
Itatira foi assistido na Mostra Competitiva do 20º CineOP — Mostra de Cinema de Ouro Preto.
JORNALISTA, PUBLICITÁRIO E CRÍTICO DE CINEMA. Cresceu no ambiente da videolocadora de bairro, onde teve seu primeiro emprego. Ávido colecionador de mídia física, reune mais de 3 mil títulos na sua coleção. Já participou de produções audiovisuais independentes, na captura de som e na produção de trilha musical. Hoje, escreve críticas de filmes pro site do Cinema com Crítica e é responsável pela editoração das apostilas do Clube do Crítico. Em 2025, criou seu perfil, Cria de Locadora, para comentar cinema em diversos formatos.



