O casamento é uma convenção social e jurídica cuja ideia de constância ou imutabilidade, derivada do catolicismo, constitui-se uma amarra um tanto utópica. Os contraentes não carregam a mesma personalidade durante toda a vida – nem pessoas, e tampouco situações, são as mesmas. A modulação das relações é fundamental para que a união se sustente no tempo. É ilusório, ainda, pensar que o casamento é uma instituição aplicável a todas as relações, muito embora seja a forma mais segura de oficializá-las em razão da proteção legal conferida tanto à sua constituição como ao seu rompimento. Trata-se, de fato, de um atestado de existência da relação familiar.
Sendo fato que sua imutabilidade é uma farsa ainda mais perceptível quando não há um esforço conjunto em prol da adaptação quanto às mudanças naturais da vida, sua ruptura deveria ser muito menos polêmica ou dificultosa do que geralmente o é. Mas isso também é utopia. Não só perante a sociedade, que ainda tem dificuldades de aceitar o divórcio, mas principalmente, com relação aos contraentes em si. Seres humanos são complexos, e a intimidade adquirida entre pessoas que se casam não será alcançada em nenhum outro patamar de relação social.
Muito embora possamos ser pessoas diferentes em contextos sociais diversos, dentro de nossas casas somos os seres primeiros de nossa personalidade. Volveréis, longa de Jonás Trueba vencedor do prêmio Label Europa Cinemas da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, vai abordar, com humor ligeiramente melancólico, essa faceta frágil e tão humana das relações, sentimentos e intimidades entre pessoas, através de um casal, Ale (Itsaso Arana) e Alex (Vito Sanz) que comumente decide se separar e celebrar essa separação com uma festa e pessoas queridas. Afinal, se há a celebração de uniões, por que não celebrar seus rompimentos se eles fazem parte da vida?
Para Kierkegaard, filósofo dinamarquês citado no filme, o “amor de repetição” é a ideia de que o verdadeiro amor relaciona-se à capacidade de reviver o que se repete, transformando o hábito em algo significativo. Volveréis é um filme que se move pela conscientização desse amor maduro, não idealizado, o amor de repetição, que precisa, na realidade, reafirmar sua necessidade de acabar – nos personagens, na metalinguagem, na imagem que vai se montando – para entender seu momento e ser devidamente celebrado, seja no seu fim, seja no seu recomeço. O diretor vai brincar com a profissão dos personagens (ela é diretora de cinema, ele é ator) para fazer da decisão deles uma boa ideia para um filme e transformá-lo, aos poucos, em algo que está sendo construído e montado pelos próprios personagens, a ponto de (quase) não sabermos se assistimos ao filme de Trueba ou de Ale.

Trueba lança pistas através do uso sutil dos próprios recursos do dispositivo cinematográfico – movimentos de câmera, jump cuts, trilha sonora, mudanças de enquadramentos – para que, num olhar mais atento, identifiquemos o que estamos vendo. A estrutura vai nos confundindo, transitando no filme dentro do filme, inserindo elementos dramáticos que imediatamente nos tocam, para em seguida percebermos sua descontextualização. Durante o longa de Jonás Trueba, Ale está editando o próprio longa, desordenado, alinhando-se aos poucos em som e imagem, tão confuso como sua própria vida.
A presença da mesma história em mise en abyme integra a proposta da maturidade do amor de repetição. Ale e Alex querem festejar sua desunião, e para isso precisam convidar as pessoas queridas de seus convívios sociais, e consequentemente, contar a mesma narrativa e argumentação várias vezes, para cada uma delas, inclusive, em outra língua, o que vai tornando a expressão dos sentimentos mais difícil (e real) – vamos nos separar, foi uma decisão conjunta, estamos bem e queremos celebrar. A notícia e o convite são sempre conduzidos por um receio mútuo, já que a reação das pessoas geralmente é muito incrédula. O que eles propõem, naturalmente, não é convencional. A própria origem da ideia de celebração, que vem da mente desconstruída do pai de Ale, nota-se ter uma conotação muito mais ilusória do que uma desconstrução social concreta. Pessoas usam outras relações como parâmetros para as suas, e quando esses parâmetros falham, há uma desestabilização de um contexto para muito além do casal.
Se em suas falas os personagens externam com convicção a decisão, seus instintos e trocas profundas de intimidade vão sinalizar um sentido diverso daquele proposto pelas palavras. Parece que não há, de fato, certeza absoluta de nada. Dizem estar bem, mas aumentam sobremaneira o consumo de álcool e cigarros. Estão convictos da separação, mas à noite, é ele quem apazigua os pesadelos dela simplesmente ao tocar suas mãos enquanto ela dorme, ou troca os lençois sujos de menstruação, detalhes um tanto comoventes. Existe uma estreiteza quase que espiritual entre essas pessoas, porque elas se conhecem muito bem. Mas há, também, o reconhecimento de que tal estreitamento não é suficiente para manter a saúde de uma relação, que vai mostrando-se cada vez mais desgastada e distanciada em sentimento e objetivo comum.
A realização fílmica em Volveréis é a forma escolhida pelos personagens para lidar com o caos e os cacos do relacionamento, para mostrar que reconhecer o fim do amor também pode ser uma demonstração dele. Repetem-se as tomadas do filme, repete-se a contação da notícia aos entes queridos, como forma de amadurecer e (re)afirmar o inevitável que se adia, que se alonga e acumula mágoas. Ou ainda, que o fim do amor pode ser o recomeço de um novo, restaurado, que precisou da repetição para se tornar maduro. Como o próprio pai de Ale nos traz, o amor de repetição é o único que existe porque representa a segurança do momento. Celebrar o momento da separação, cuja certeza foi se assumindo progressivamente, revela-se, de forma agridoce, coisa de cinema.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

