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Touch Me

Classificado como 3.5 de 5

Touch Me

2026

100 minutos

Classificado como 3.5 de 5

Diretor: Addison Heimann

Touch Me trabalha relacionamentos abusivos, dependência emocional e válvulas de escape a partir de horror cósmico, com romance entre humanos e um suposto alienígena.

Logo na primeira cena de Touch Me, acompanhamos a protagonista em uma sessão de terapia. A profissional, em sua frente, após um longo período de tratamento, a pede que conte uma história engraçada e absurda, similar a realidade, sobre uma situação traumática da qual foi sobrevivente – um exercício de imersão, utilizado para trabalhar o trauma, sobretudo junto a pessoas que passaram por situações de estresse pós-traumático, como forma de auxiliar na superação do trauma, especialmente quando em contato com as memórias do fato ou da época em que se deram. Assim, Joey, vivida por Olivia Taylor Dudley, em um monólogo de quase dez minutos, conta sobre sua relação com um homem que se dizia um alienígena.

A princípio, acreditamos tratar-se de uma metáfora, uma brincadeira que existia entre eles, ou tão somente um exagero, até que a convicção da personagem passa a sugerir o contrário. O excesso de detalhes nos faz questionar até que ponto tudo aquilo poderia ser realidade ou ficção. Ao retornar para casa, na qual vive com o amigo Craig, interpretado por Jordan Gavaris, Joey revisita fotos daquele período, e até um vídeo erótico, aparentemente explícito (já que não temos a oportunidade de assisti-lo), como forma de nos introduzir a figura de Brian, o suposto homem-alienígena, e reforçar uma espécie de vazio que existe em seu interior, como se a própria vida jamais deslanchasse diante de uma série de traumas subsequentes.

Notadamente, o passado conturbado volta ao encontro da protagonista, quando, na fila de um supermercado, cruza novamente com Brian, de quem achava que havia escapado. A reentrada do homem em sua vida acontece de maneira definitiva quando um vazamento de esgoto torna a vivência na casa com Craig inviável, os levando a passar um final de semana com o homem-alienígena.

Ainda que passados cinco anos entre a relação anterior e o tempo da narrativa, existe um aspecto de dependência emocional muito bem trabalhado pela direção de Addison Heimann quando Brian faz suas primeiras aparições pessoalmente, contradizendo o discurso da personagem. Ao mirar em seu rosto, e em câmera lenta, o diretor insere luzes coloridas ao fundo, com uma música romântica, deixando a sugestão de que sua presença é enxergada pela protagonista como uma situação de conforto, ainda que esta não seja a imagem que expõe em terapia. O alienígena é visto pela câmera como uma espécie de salvador – e não à toa se faz a caracterização de Lou Taylor Pucci à imagem de Jesus (nas pinturas europeias, evidentemente), com seus cabelos compridos, voz baixa, em tons suaves, olhos claros, e muita tranquilidade em seus trejeitos e comportamentos.

Jordan Gavaris, Lou Taylor Pucci e Marlene Forte em cena de Touch Me.

Quando juntos novamente, na casa de veraneio do alienígena, seus poderes passam a se manifestar concretamente. Com um simples toque no rosto, por exemplo, é capaz de abstrair qualquer ansiedade de Joey, maus pensamentos, cansaço ou desespero, e a partir da relação sexual, gera um alívio imensurável. É o que justifica o encantamento da protagonista pela pessoa de Brian – e o mesmo pode-se dizer também de Craig, um homem igualmente tomado por traumas que não consegue superar, e cuja vida sexual se resume a relacionamentos pontuais, sem nunca encontrar algo duradouro, o que frequentemente o incomoda, encontrando no alienígena um alívio que jamais vivenciara.

A partir de um ambiente dotado de excessiva positividade, entre danças de hip-hop e uma espécie de terapia pautada no contato físico e no sexo, algo soa estranho à protagonista, que mesmo encantada pelos poderes do misterioso Brian, ainda mantém memórias passadas que as incomoda, e sobretudo, questiona as verdadeiras intenções do homem. Nesse cenário, as constantes mudanças na razão de aspecto enquanto mostra essas sessões de terapia e enfrentamento de traumas passados, conduzidas pelo anfitrião extraterrestre, em planos escuros, fechados, iluminados por luzes neon, em uma sensação de claustrofobia, aos poucos revela uma dinâmica mais profunda e estranha do aparenta.

É o que ocorre quando o filme passa a interessar-se também por Brian, longe de Joey, em conversas com Laura, sua assistente (humana), e apaixonada por sua persona. Ainda que revele algumas intenções cedo demais, e até um tanto óbvias dado o contexto criativo construído pelo filme, é eficaz na elaboração de um senso de perigo aos protagonistas. Heimann não entrega tudo de bandeja, e guarda algumas revelações para momentos posteriores, justamente quando decide explorar também o que existe por detrás de Brian, em seus momentos sombrios, em um exercício de desconstrução do “homem” perfeito que aparenta ser.

O clímax de Touch Me, então, articula uma metáfora aos relacionamentos abusivos, pelos quais Joey e Craig acabam fisgados enquanto mantém relações com Brian, ao passo que depositam nessa figura, que lhes vende conforto, uma fuga às próprias mágoas, com a falsa superação de traumas do passado. O enfrentamento às próprias dores se faz a partir do enfrentamento daquele que delas se alimenta, provocando uma oportunidade de catarse quanto aos momentos de suas vidas, e uma oportunidade de seguir adiante. Addison Heimann demonstra coragem pela maneira como aborda a violência sexual e o próprio ato em sua mistura com o terror cósmico e a ficção científica – até de maneira que recorda, mesmo que vagamente, e estoniano The Black Hole (2025), dirigido por Moonika Siimets, com seus alienígenas repletos de libido e interesses sexuais –, enquanto deixa a dúvida, sempre latente, sobre os limites entre a realidade e a ficção, enquanto conta partes da história à terapeuta.

Touch Me será lançado em blu-ray e nas plataformas digitais do Reino Unido no dia 04 de maio. No Brasil, ainda não há previsão de lançamento.

English review

Touch Me explores abusive relationships, emotional dependency, and coping mechanisms through cosmic horror, centering on a romance between humans and a supposed alien.

In its very first scene, we follow the protagonist in a therapy session. The professional in front of her, after a long period of treatment, asks her to tell a funny and absurd story – one that mirrors reality – about a traumatic situation she survived. It is an immersion exercise used to process trauma, especially for those who have experienced post-traumatic stress, helping them confront memories of the event or the time in which it occurred. Thus, Joey, played by Olivia Taylor Dudley, delivers a nearly ten-minute monologue recounting her relationship with a man who claimed to be an alien.

At first, it seems like a metaphor, a shared joke, or perhaps an exaggeration, until the character’s conviction begins to suggest otherwise. The level of detail makes us question how much of it could be real or fictional. Upon returning home – where she lives with her friend Craig, played by Jordan Gavaris – Joey revisits photos from that period, and even an apparently explicit erotic video (which we never actually see), introducing us to Brian, the supposed alien man, while reinforcing a sense of emptiness within her, as though her life has never quite moved forward after a series of traumatic experiences.

Unsurprisingly, this troubled past resurfaces when, while standing in line at a supermarket, she encounters Brian again, whom she believed she had escaped. His reentry into her life becomes definitive when a sewage leak makes her home uninhabitable, leading her and Craig to spend a weekend at the alien’s house.

Despite the five years that have passed since their previous relationship, a strong sense of emotional dependency is skillfully portrayed by Addison Heimann when Brian first appears in person, contradicting Joey’s earlier account. As the camera lingers on his face in slow motion, the director adds colorful lights in the background along with romantic music, suggesting that his presence is perceived by Joey as comforting – even if that is not how she describes him in therapy. The alien is framed almost as a savior – and not coincidentally, Lou Taylor Pucci is styled in a way reminiscent of Jesus (in the European pictorial tradition), with long hair, a soft voice, light eyes, and a calm demeanor.

Olivia Taylor Dudley in Touch Me scene.

Once reunited at the alien’s vacation home, his powers begin to manifest more concretely. With a simple touch to Joey’s face, he can seemingly remove her anxiety, negative thoughts, exhaustion, or despair; through sexual intimacy, he provides an immeasurable sense of relief. This explains Joey’s fascination with Brian – and the same applies to Craig, another man burdened by unresolved trauma, whose sexual life consists of fleeting encounters, never forming lasting bonds, and who finds in the alien a relief he has never experienced before.

Within this overly positive environment – filled with hip-hop dancing and a kind of therapy based on physical contact and sex – something begins to feel off to Joey. Even as she is drawn to Brian’s powers, she retains memories that trouble her and begins to question his true intentions. The film reflects this through constant shifts in aspect ratio during these “therapy” sessions, presented in dark, enclosed spaces illuminated by neon lights, creating a growing sense of claustrophobia and revealing a deeper, stranger dynamic beneath the surface.

This becomes even clearer when the film shifts its focus to Brian himself, away from Joey, in conversations with Laura, his (human) assistant, who is infatuated with him. Although some of his intentions are revealed a bit too early – and somewhat obviously, given the film’s setup – it still effectively builds a sense of danger around the protagonists. Heimann does not reveal everything at once, saving key information for later as he deconstructs the image of the “perfect” man Brian initially appears to be.

The climax of Touch Me ultimately functions as a metaphor for abusive relationships, in which Joey and Craig become entangled while projecting onto Brian a false sense of comfort – an escape from their pain and a superficial overcoming of past trauma. True healing, however, only emerges when they confront the very figure that feeds on their suffering, allowing for a cathartic reckoning with their pasts and the possibility of moving forward.

Heimann shows notable boldness in his approach to sexual violence and intimacy within the framework of cosmic horror and science fiction – at times even recalling, albeit loosely, The Black Hole, directed by Moonika Siimets, with its libidinal, sexually driven alien figures – while maintaining a lingering ambiguity about the boundaries between reality and fiction as Joey recounts her story in therapy.

Touch Me will be released on Blu-ray and digital platforms in the United Kingdom on May 4.

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