Viver o presente na melhor idade
Filmado inicialmente sem roteiro, durante o confinamento da pandemia, como alternativa para aproximar filho (Régis) e pai (Reginaldo) e manter a mente ativa e criativa, Perto do Sol é Mais Claro é o fruto da observação do pai pelo filho, e do ator pelo diretor. Régis Faria, que acumulou todas as funções nos sets de filmagem (direção, roteiro, fotografia, edição de som e, depois, montagem), colocou a sua câmera diante do pai, Reginaldo Faria, e registrou o cotidiano silencioso de um homem, octogenário, realizando a rotina de atividades domésticas e lúdicas.
Esse gesto inicial amadureceu na história de Rêgi, um homem recém viúvo que tenta preservar a autonomia em um mundo que preferiria aposentá-lo, descartá-lo e interná-lo em uma casa de repouso. Entretanto, Rêgi resiste. Ele acumula o trabalho como engenheiro em uma obra com a leitura, o esporte, a meditação e a criação na música e literatura; ele está escrevendo os parágrafos iniciais de seu livro.
A decisão de fotografar a obra em preto e branco, associada pelo próprio diretor a uma espécie de “olhar analógico” do protagonista em um mundo digital, revela-se apropriada porque o filme inteiro parece atravessado por uma tensão entre dois tempos históricos distintos. Há, de um lado, um homem que pertence a uma geração acostumada à materialidade concreta das coisas: construir casas, escrever livros, tocar instrumentos, cozinhar o próprio café da manhã, movimentar o corpo como uma extensão instintiva do ato de viver. De outro, uma contemporaneidade cada vez mais mediada por celulares ou tablets, aplicativos e redes sociais, e formas de interação que transformaram o telefone em uma extensão da existência humana.
Durante um longo primeiro ato, o filme praticamente abandona qualquer obrigação dramática convencional para apenas acompanhar os gestos diários de Rêgi. Nessa ausência de acontecimentos, interrompida por sons da cafeteira ou torradeira ou pelos palavrões soltados a plenos pulmões por Reginaldo Faria, reside a força narrativa. Cada ação executada por aquele homem de 85 anos carrega uma dimensão política, que reafirma que envelhecer não é se tornar inútil, e reclama o direito à autonomia e autodeterminação. Se, por muito tempo, o cinema frequentemente reduziu a pessoa idosa a papéis coadjuvantes e a associou à fragilidade, à dependência ou à melancolia; de uns tempos para cá, essa velhice ressurgiu como a continuidade da experiência de vida, ainda atravessada por desejo, curiosidade e potência (recentemente, tivemos O Último Azul e Velhos Bandidos para afirmar este momento no cinema nacional).
Nesse sentido, Perto do Sol É Mais Claro transforma a ideia de envelhecimento em narrativa de reinvenção e ainda amadurecimento. Rêgi continua criando. Como engenheiro, a criação é matéria, é concreto; como escritor amador, a criação é imaginação, é palavras e emoções atiradas no texto (se a máquina de escrever ou o MacBook permitirem); como homem, a criação é criar um vínculo amoroso com Vanessa (Gerbelli). Vanessa é quem cria a tensão entre o mundo analógico e digital de forma mais clara, incapaz de separar o que pertence ao real do que pertence ao virtual, porque este já está inscrito na realidade. A relação é agridoce, mas não é trágica, como também não é o filme. Régis não pode alterar a cronologia, e para quem tem 85 anos, há menos futuro do que houve passado, mas o cineasta afirma que é isto que torna o presente um bem ainda mais precioso.
Nesse aspecto, a narrativa aborda o preconceito etário ou etarismo de forma inteligente. Embora não haja a ridicularização ou hostilidade que as manchetes de jornais anunciam nas manchetes, o etarismo é igualmente doloroso para Rêgi, porque disfarçado de afeto e cuidado. Quando o filho Marcelo (Faria) sugere a sua aposentadoria ou, pior, o seu recolhimento em uma casa de repouso, acredita estar fazendo o melhor para o pai, protegendo-o, quando o estaria matando, retirando a sua razão de existir no mundo. Dentro de um mundo acelerado e atarefado, Marcelo não escuta o pai, esquece o que havia pedido, não presta atenção na história contada durante a visita aos domingos. O etarismo aqui é deslocado à esfera existencial, e o viver é agir sobre o mundo e é se sentir ouvido por esse mundo. Algo que tiram de Rêgi pouco a pouco.
E que Régis restitui em uma produção intimista e, até mesmo, artesanal, em que não tenta disfarçar alguma precariedade ou limitação da produção, como a iluminação às vezes inconsistente e a edição sonora com alguns ruídos impossíveis de eliminação na pós-produção. É até um tipo de “erro” bonito de ver, porque está integrado à lógica afetiva que rodeia o projeto.
Um projeto que é ancorado na presença magnética de Reginaldo Faria, um ator cuja trajetória se confunde com uma parte significativa da história do cinema e da televisão. De Assalto ao Trem Pagador a Lúcio Flávio, de Pra Frente, Brasil a Memórias Póstumas, e isto porque nem vou entrar no recorte das telenovelas, Reginaldo Faria já interpretou um espectro amplo de personagens e dramas. No entanto, o de Rêgi parece, e eu reforço o parece, cortar bem mais perto da carne. Para além de elementos autobiográficos óbvios na presença de pessoas ou escolha de locações, o amadurecimento / envelhecimento é uma experiência de vida do ator veterano. E enquanto revela partes de si – na trilha sonora, a maioria das composições é sua ao violão -, também revela outras, transformando o corpo já envelhecido, mais desgastado, com movimentos menos seguros, ou seja, carregando as marcas concretas do tempo biológico, em um terreno de luta pela vida. Se você não se alegrar com a comemoração de Rêgi após uma ligação, deve ter perdido a capacidade de sentir.
Perto do Sol é Mais Claro apoia-se no envelhecimento para revelar a permanência do desejo de viver diante de um mundo preconceituoso que frequentemente tenta transformar idosos em presenças passivas, administráveis e invisíveis. Sem explosões dramáticas e muito menos tragédias, Régis Faria constrói um tributo simultâneo ao pai, à criação artística e à persistência humana. Um filme pequeno em escala, feito com amor e carinho, e consideravelmente generoso e sensível.
Perto do Sol é Mais Claro estreia quinta-feira, 14/05, nos cinemas brasileiros.
Crítico de cinema filiado a Critics Choice Association, à Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Online Film Critics Society e a Fipresci. Atuou no júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/SP, do 12º Fest Aruana em João Pessoa/PB, do 24º Tallinn Black Nights Film na Estônia, do 47º TIFF – Festival Internacional de Cinema em Toronto. Ministrante do Laboratório de Crítica Cinematográfica na 1ª Mostra Internacional de Cinema em São Luís (MA) e Professor Convidado do Curso Técnico em Cinema do Instituto Estadual do Maranhão (IEMA), na disciplina Crítica Cinematográfica. Concluiu o curso de Filmmaking da New York Film Academy, no Rio de Janeiro (RJ) em 2013. Participou como co-autor dos livros 100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), Documentário brasileiro: 100 filmes essenciais (Letramento, 2017) e Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais (Letramento, 2018). Criou o Cinema com Crítica em fevereiro de 2010 e o Clube do Crítico em junho de 2020.


