Três Horas para Viver busca por uma retomada ao cinema de ação ao estilo dos anos oitenta, para o bem e para o mal.
Da premissa, é muito curioso o fato de que Três Horas para Viver é um filme que muito pouco se diferencia em relação a tantas outras produções de ação. Caso não soubesse se tratar de um filme de 2026, acreditaria ser algo produzido na década de 1980, provavelmente ao tempo sendo protagonizado por Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger ou quem sabe até mesmo Chuck Norris.
A proposta é básica: um ex-soldado norte-americano, enlutado após a morte da filha, agora sóbrio há um ano, e jurando não ‘machucar’ mais pessoas, trabalha na Austrália cumprindo serviços de proteção e transporte, quando é contratado para transportar o guardião de uma caixa refrigerada contendo um transplante de órgão humano, o qual será levado para salvar a vida de uma criança doente em um hospital. Porém, são interceptados por uma organização mafiosa, que deseja roubar o conteúdo do transplante.
Ao mesmo tempo que o longa trabalha com a fórmula da dupla improvável, composta por pessoas completamente diferentes que precisam colaborar entre si para um objetivo comum – algo que, mais recentemente, Dupla Explosiva fez com mais carisma e inventividade –, também recicla uma série de ideias comuns ao próprio cinema de ação. Se não bastasse, de certa maneira, a reprodução da premissa de Carga Explosiva, a série derivada dessa franquia cinematográfica, Transporter: The Series, traz exatamente uma narrativa idêntica em um episódio da primeira temporada. O diferencial, porém, é que em Três Horas para Viver não existe um dilema moral a ser enfrentado: o transplante deve chegar ao hospital, sem mais e nem menos, sem qualquer oferta por parte dos antagonistas.
O roteiro escrito a quatro mãos por Miles Hubley e Tommy White sustenta suas ideias recicladas na força de uma dupla protagonista vivida por Alan Ritchson e Owen Wilson. Quando busca por um diferencial na relação entre eles, que não apenas uma colaboração genérica para as cenas de ação, se esforça na incapacidade do personagem de Wilson em lutar – afinal, não é um soldado como o de Ritchson, e tampouco seu trabalho exige algum tipo de combate ou habilidades como tal. Isso torna as sequências mais intensas, a partir do momento em que a necessidade de proteção se estende também ao guardião do conteúdo transportado, e não apenas a uma caixa. E ainda que não lutem em conjunto, em meio ao caos e a quantidade de pessoas envolvidas em longas batalhas nos espaços urbanos, o personagem de Wilson auxilia na maneira como pode, desviando, correndo, eventualmente jogando objetos a Ritchson, ao mesmo tempo em que também apanha e se levanta, com mais dificuldade.

Alan Ritchson e Owen Wilson em cena de Três Horas para Viver.
A certa distância que existe entre essa dupla não se dá necessariamente pela falta de carisma do elenco, mas por uma busca por realismo que o roteiro e a direção tentam empregar, mesmo sem perceber que isso talvez distancie o público desses personagens, e dessa narrativa como um todo. Por outro lado, leva essa ideia de certo realismo ao limite, quando também não se apega aos personagens, de tal forma que sempre sugere não estarem ambos isentos de serem atingidos, e até mesmo de perderem suas vidas em combate.
Um mistério ajuda a alongar a duração do longa, quando os protagonistas passam a questionar quem poderia estar os perseguindo, o porquê, e como ficaram sabendo sobre o transplante. Mesmo que não haja grande complexidade, a direção de Scott Waugh é capaz de exportar essas dúvidas para além da tela, quando leva sua câmera também para dentro do hospital, e acompanha a equipe médica, a mãe e a criança aguardando pelo órgão transportado pelos personagens principais, até como forma de também aumentar a veia dramática e oferecer uma maior conexão para com o público.
Ainda que existam algumas surpresas, por vezes até previsíveis, especialmente voltadas à motivação dos vilões, com até certa humanização, liderados pelo brasileiro Rodrigo Santoro, uma mescla de elementos os tornam questionáveis em um mal sentido, tendo em vista que conflitam entre si. Ao ser revelado que se trata de um cartel de drogas colombiano, por exemplo, surgem estranhamentos, como o uso do português por parte do líder – é legal ouvir nossa língua, de fato, mas não necessariamente vindo de um líder mafioso estereotipado que em tese nem é originário de nosso país –, bem como sua atuação aleatória na Austrália e seus soldados como motociclistas mal-encarados.

Rodrigo Santoro, em cena de Três Horas para Viver.
Todas essas ideias acabam reforçando um esforço de Três Horas para Viver para retomar o estilo do cinema de ação dos anos 1980, de certo mais conservador, na forma de uma missão urgente, um vilão mafioso estrangeiro que deseja roubar o órgão de transplante de uma criança, e uma colaboração improvável, cuja responsabilidade pelo combate acaba depositada sob as costas de uma espécie de “exército de um homem só”, ao passo que defende, discretamente, alguns valores cristãos na forma desse protagonista arrependido e que se culpa pela própria desgraça.
E é na ação que o filme se volta ao cinema mais contemporâneo, a partir da maneira como Waugh experimenta com suas coreografias e até um divertido plano-sequência na reta final, envolvendo uma perseguição entre carros e uma ambulância em uma grande avenida. É uma pena, porém, que não se permita explorar mais da violência gráfica, quando limitado por uma classificação indicativa mais baixa, justamente quando algumas cenas clamam por mais impacto – algo parecido com o que aconteceu, no ano passado, com o longa Chefes de Estado.
Dessa maneira, mesmo que com poucos diferenciais em uma imensidão de filmes de ação, construindo-se até de maneira genérica, Três Horas para Viver não deixa de ser, também, divertido. No fundo, funciona nessa referência ao cinema dos anos oitenta, despretensioso em uma mescla de exagero na ação e realismo na construção de personagens e determinadas situações, ainda que pudesse se esforçar para se esquivar dos estereótipos, já excessivamente ultrapassados, e pudesse abraçar com mais liberdade a própria violência, sem tanto se limitar à classificação indicativa, que reduz consideravelmente seu próprio impacto.
Três Horas para Viver será lançado nos cinemas norte-americanos no dia 11 de setembro. No Brasil, está programado para chegar aos cinemas no dia 08 de outubro.
English review
Runner seeks to return to action cinema in the style of the eighties, for better and for worse.
From its premise, it is quite curious that Runner is a film that differs very little from so many other action productions. Had I not known it was a 2026 film, I would have believed it was something produced in the 1980s, probably at the time starring Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, or perhaps even Chuck Norris.
The premise is basic: a grieving former American soldier, now one year sober after the death of his daughter, and swearing that he will not ‘hurt’ anyone anymore, works in Australia carrying out protection and transportation services, when he is hired to transport the guardian of a refrigerated box containing a human organ transplant, which will be taken to save the life of a sick child in a hospital. However, they are intercepted by a mafia organization that wants to steal the transplant.
At the same time that the feature works with the formula of the unlikely duo, composed of completely different people who need to collaborate with one another toward a common goal – something that, more recently, The Hitman’s Bodyguard handled with more charisma and inventiveness – it also recycles a series of ideas common to action cinema itself. As if reproducing the premise of The Transporter were not enough, the television series derived from this film franchise, Transporter: The Series, features an exactly identical narrative in an episode from its first season. The difference, however, is that in Runner there is no moral dilemma to be faced: the transplant must reach the hospital, plain and simple, without any sort of offer from the antagonists.
The screenplay written by Miles Hubley and Tommy White together sustains its recycled ideas through the strength of a protagonist duo played by Alan Ritchson and Owen Wilson. When searching for a distinction in their relationship, rather than merely a generic collaboration for the action scenes, it focuses on Wilson’s character’s inability to fight – after all, he is not a soldier like Ritchson’s character, nor does his job require any kind of combat or such skills. This makes the sequences more intense, from the moment the need for protection also extends to the guardian of the transported contents, rather than merely to a box. And even though they do not fight together, amid the chaos and the number of people involved in lengthy battles through urban spaces, Wilson’s character helps in whatever way he can, dodging, running, occasionally throwing objects to Ritchson, while also taking hits and getting back up with greater difficulty.
The certain distance that exists between this duo is not necessarily due to the cast’s lack of charisma, but rather to an attempt at realism that the screenplay and direction try to employ, without realizing that this may perhaps distance the audience from these characters, and from the narrative as a whole. On the other hand, it takes this idea of a certain realism to the limit, when it also refuses to become attached to the characters, to such an extent that it constantly suggests that neither of them is exempt from being hit, or even from losing their lives in combat.
A mystery helps stretch out the feature’s runtime, as the protagonists begin to question who might be pursuing them, why, and how they found out about the transplant. Even though there is no great complexity, Scott Waugh’s direction is capable of exporting these questions beyond the screen, when he also takes his camera inside the hospital, following the medical team, the mother and the child waiting for the organ being transported by the main characters, also as a way of heightening the dramatic vein and offering a greater connection with the audience.

Owen Wilson and Alan Ritchson in Runner scene.
Even though there are some surprises, at times even predictable ones, especially regarding the villains’ motivations, with a certain degree of humanization, led by Brazilian actor Rodrigo Santoro, a mixture of elements makes them questionable in a negative sense, considering that they conflict with one another. When it is revealed that they are a Colombian drug cartel, for example, certain oddities emerge, such as the leader’s use of Portuguese – it is nice to hear my language on the screen, indeed, but not necessarily coming from a stereotypical mafia leader who, in theory, is not even from my country – as well as their random activities in Australia and their soldiers as intimidating motorcyclists.
All these ideas end up reinforcing Runner effort to return to the style of 1980s action cinema, somewhat more conservative, in the form of an urgent mission, a foreign mafia villain who wants to steal a child’s transplant organ, and an unlikely collaboration whose responsibility for the fighting ultimately falls on the shoulders of a kind of “one-man army”, while discreetly defending certain Christian values through this remorseful protagonist who blames himself for his own misfortune.
And it is through the action that the film turns toward more contemporary cinema, based on the way Waugh experiments with his choreography and even a fun long take in the final stretch, involving a car and ambulance chase along a major avenue. It is a shame, however, that it does not allow itself to explore more graphic violence, being limited by a lower age rating, precisely when some scenes call for greater impact – something similar to what happened last year with the feature Heads of State.
In this way, even with few distinguishing features amid an immense number of action films, and constructed in a rather generic manner, Runner is nevertheless also entertaining. At its core, it works as a reference to eighties cinema, unpretentious in its mixture of exaggerated action and realism in the construction of characters and certain situations, even though it could make more of an effort to steer clear of stereotypes that are already excessively outdated, and could embrace its own violence more freely, without being so limited by the age rating, which considerably reduces its own impact.
Runner opens in theaters in the United States on September 11.
Crítico de cinema desde 2019. Formado em crítica de cinema pela Academia Internacional de Cinema (2020), e aluno do Clube do Crítico desde 2021, é criador do Cineolhar e colaborador do Cinema com Crítica.


