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Uma Família

Classificado como 3 de 5

Uma Família

2026

89 min

Classificado como 3 de 5

Diretor: Mees Peijnenburg

Uma família, um divórcio, quatro pessoas, dois pontos de vista – o de Nina e o de Eli, os filhos de um ex-casal que há muito deixou reinar a desconfiança e o ressentimento mútuos como motivadores de todas as suas ações após o reconhecimento do fim de uma longa relação. Uma Família, filme de Mees Peijnenburg que recebeu uma menção especial na seção Generation 14plus do Festival de Berlim de 2026 e é produzido por Michiel e Lukas Dhont, adota o ponto de vista daqueles que mais sofrem com a ausência de diálogo e a violência verbal entre os pais, podendo ser propulsora para gerar adultos fragmentados e maculados para toda uma vida – e como a redescoberta do afeto pode atuar como elemento de mitigação e manejo de danos.

Há de se mencionar que o filme não provoca, em momento algum, a vilanização do divórcio. Em sendo o casamento um contrato, sua dissolução não deveria surpreender. De fato, a falta de tato e maturidade emocional na administração de seu acontecimento, e via de consequência, a intensidade das emoções negativas daí advindas, é provocada, justamente (mas não só), pela idealização da união entre duas pessoas como uma obrigação para a vida. Há casos em que essa durabilidade será possível e há casos em que não, e a naturalização dos insucessos certamente é passível de eximir as partes da pressão social por relacionamentos perfeitos.

Mees Peijnenburg deixa claro, diante da adoção dos pontos de vista isolados sobre os mesmos acontecimentos, que a expectativa das crianças não é o restabelecimento da relação dos pais, Maria (Carice von Houten) e Jacob (Pieter Embrechts), mas sim a cessação da violência, violência essa que afasta os irmãos ao ponto da incomunicabilidade e reprodução da falta de entendimento praticada pelos adultos.

Finn Vogels em Uma Família (Imagem: divulgação)

Uma Família é estruturado em dois capítulos, que levam o nome de cada um dos filhos. Nina (Celeste Holsheimer) é a mais velha, uma adolescente que sofre de uma ansiedade claramente provocada pelas circunstâncias belicosas do convívio com os pais. Ignorando a presença do irmão mais novo, ela encontra algum alento afetivo na namorada, com quem se expressa, troca carícias e encontra seu refúgio, ao menos, quando a ansiedade não lhe toma plena conta. Sua perspectiva, por tais razões, nos conduz a um lugar de observação que sente o sofrimento da jovem de uma forma mais distanciada. 

Eli (o expressivo Finn Vogels) não só é um tanto mais novo que Nina, como carrega em si, como reflexo de todo conflito, a formação de uma personalidade distinta da irmã: a da introspecção. Por sua idade, é alvo fácil das tentativas de manipulação de cada um dos pais no que se refere tanto às questões de rotina, onde é usado para que ataques mútuos ocorram, como naquilo que concerne a maior questão que envolve a fase vigente do divórcio, qual seja, a guarda das crianças. A incapacidade de Eli de dizer o que quer e o que sente é desesperadora, e portanto, o nosso lugar observacional de sua ótica é muito mais aflitivo e angustiante. Com os olhos, Vogels transmite um desejo muito intenso por afeto e contato humano, e a falta dessa percepção por todos ao seu redor é desalentadora – queremos, nós, atravessar a tela para abraçá-lo.

Os irmãos possuem, de fato, os mesmos desejos, as mesmas necessidades e carências, os mesmos interesses e sentimentos semelhantes. Lidam com as mesmas questões: brigas intermináveis por minutos de atraso na entrega das crianças, roupas sujas, provocações vistas em todos os lados e atitudes, mentiras e manipulações. Entretanto, o modo como o diretor nos apresenta as diversas visões sobre o mesmo evento para demonstrar as consequências graves da incomunicabilidade, do isolamento e da frieza, o mantém distante de fazer de Uma Família o que poderíamos chamar de “mais um filme sobre divórcio”.

Como dito ao início, para Mees Peijnenburg o vilão não é o divórcio. O diretor possui a bonita sensibilidade de apaziguar nossas angústias (e de seus personagens) através da recordação de gestos afetuosos muito simples que, em meio à guerra, são esquecidos num movimento cruel provocado por adultos sobremaneira feridos.

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