Aplicado à física, o conceito de ressonância consiste, em uma explicação leiga e simples, na sintonia entre a absorção de energia e a vibração de um determinado objeto, gerando um movimento em aumento progressivo. É como empurrar um balanço na hora certa: se o ritmo externo coincide com o ritmo natural do objeto, eles entram em sintonia – o objeto absorve essa energia e a vibração ecoa cada vez mais forte.
Portanto, ressonar – ou ecoar – é sinônimo de propagar algo e ampliar o seu efeito. Ressonância, curta-metragem dirigido por Anna Zêpa e exibido na 12ª CineFest Votorantim, aplica o conceito em sentido literal e metafórico: sua protagonista, Margarida (Soia Lira, fabulosa), é um espírito livre que trabalha há anos como motorista de caminhão, mas, diante das debilitações que advêm com a idade, é pressionada pela família a abandonar o ofício para se dedicar à casa e à neta, uma proposta de enclausuramento cujo ponto de partida é, justamente, a realização de uma ressonância magnética.
Estabelece-se uma contradição. A ressonância, como exame, é o elemento aprisionador e claustrofóbico; como conceito aplicado a Margarida enquanto mulher livre, é o que a faz ressonar pelas estradas e pelo mundo ao seu dispor. Entre a possível doença que a máquina sufocante investiga e a liberdade oferecida por seu labor, parece não haver sintonia – portanto, essa coexistência não proporciona, a princípio, uma vibração cada vez mais forte.
O risco da limitação coloca a protagonista em fricção com a filha (Quitéria Kelly) e o genro (Alexandre Muniz), os quais representam uma microparcela da sociedade que julga mulheres que realizam trabalhos predominantemente masculinos. A doença surge como mera oportunidade para apontar dedos e, com isso, sugerir o retorno da mulher ao lar.

Anna Zêpa trabalha com uma simplicidade que se basta. Faz da rotina da casa e do trabalho o ambiente suficiente para que, por meio dos poucos diálogos e da lindíssima interpretação de Lira, se estabeleçam os pontos de conflito e os vínculos afetivos. A mesa compartilhada, o jantar deixado no prato, a neta acordando a avó, a câmera mais próxima no ambiente doméstico, fechado e escuro, e que se amplia em planos abertos na estrada, onde a claridade libertadora é regra, são construções simples a reforçar o contraste entre as ressonâncias do autogoverno e da submissão.
O elemento de equilíbrio – ou melhor, de sintonia – é a neta (Amora Maux), cuja vontade de viver uma aventura nas estradas ao lado da avó é prontamente rechaçada pelos pais. Ainda assim, a avó é o objeto que volta a ressoar com a energia da garota, provocando uma vibração em movimento crescente. A inspiração da independência ecoa de uma para a outra, como uma herança que, por mais que os fatores externos tentem tolher, existe e será transmitida.
É impossível não recordar Mulheres que Correm com os Lobos, obra da analista junguiana Clarissa Pinkola Estés. Em que pesem as pressões sociais voltadas a aprisioná-la, Margarida resgata, reivindica e impõe a mulher selvagem que a habita — pois, independentemente da idade, esse arquétipo vive em todas nós. E assim, transmite à menina o conceito de ressonância enquanto experiência empírica e libertadora.

Crítica de cinema, formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films e da Comissão de Cinema da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).



