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Entrevista: Nua na Rede – A Verdade Sobre Rose Leonel

Nua na Rede: A Verdade sobre Rose Leonel

2026

Diretor: Bia Vilela e Luiza de Andrade

Entrevista com as diretoras Bia Vilela e Luiza de Andrade 

Entrevistamos as diretoras de NUA NA REDE: A VERDADE SOBRE ROSE LEONEL, nova série documental disponível na HBO e na HBO Max, que conduzem a narrativa sobre um dos casos mais emblemáticos de violência digital no Brasil. A série revisita a história de Rose Leonel, vítima de um dos primeiros casos de divulgação de imagens íntimas sem consentimento no país, contada, pela primeira vez, a partir do olhar da própria Rose, que revela os impactos e desdobramentos pessoais, sociais e profissionais do crime e o caminho percorrido até transformar sua experiência em mobilização pública.

A história e a luta de Rose contribuíram para a atualização da Lei Maria da Penha, que passou a reconhecer e criminalizar a violação da intimidade, alteração que ficou conhecida como Lei Rose Leonel (Lei nº 13.772).

Confira:

Natália Bocanera: A série parte de um caso real amplamente conhecido, que é o caso de violência íntima digital sofrido por Rose Leonel em 2005, mas opta por deslocar o foco para seus desdobramentos. Em que momento, para vocês, se tornou perceptível que a abordagem deveria ser não a do vazamento em si, mas do que veio depois dele? 

Luiza de Andrade: Eu não acho que é um momento claro. Tudo é orgânico, enquanto a gente vai estudando e as coisas vão se criando. Mas eu acho que o crime, narrativamente, ele é um fato, ele acontece. Ele é o incidente incitante do roteiro. Porque a partir dali tem todos os desdobramentos, então eu acho que é por uma questão técnica, de roteiro. O crime durou anos. A forma como esse crime específico com a Rose Leonel aconteceu, depois de 3 anos, o criminoso continuava soltando imagens íntimas dela. É uma loucura. Normalmente a pessoa vai e divulga uma vez e já é capaz de destruir com a vida daquela pessoa. Ele durou muito tempo, só que o que acontece depois é o pior de tudo. Se você for pensar, seria horrível, mas vamos lá: se eu te mandasse uma imagem, você recebe e acaba aí, esse crime nem existe. Esse crime existe porque milhões de pessoas vão compartilhando. Aí vem como a sociedade julga: não é fácil para os próprios filhos, e ainda teve o âmbito profissional, eu acho que os desdobramentos são o que há de mais chocante. 

Bia Vilela: O nosso enfoque foi na subjetividade da Rose. Como é essa mulher? Vamos individualizar ela, trazer subjetividade, porque senão parece que é só um corpo, só mais uma pessoa, só mais uma mulher. Não, essa é uma pessoa de carne e osso, que tinha uma família, que tinha dois filhos pequenos, que tinha uma carreira, que tinha um pai, uma mãe.

Luiza de Andrade: Humanizar.

Bia Vilela: Humanizar e tirar ela da estatística, dessa imagem que o criminoso tentou construir, de que ela era uma mulher da vida, de programa e que muita gente dizia que ela estava gostando dessa exposição. Então quisemos trazer a subjetividade dela para mostrar que ela tinha uma vida como todos nós e está sofrendo imensamente com isso até hoje.

Luiza de Andrade: E mesmo se fosse! Mesmo se fosse a garota de programa, é um ser humano. É uma mãe solo, com dois filhos.

Natália Bocanera: Surge tudo isso quando a internet ainda era “mato”, não é? Acho que foi a primeira vez que fotos assim vazaram em algum momento. Tem a questão do pioneirismo no pior dos sentidos.

Bia Vilela: Exato, porque ninguém sabia o que era fake news. As pessoas tinham até ingenuidade. Tinha o lado da ingenuidade e tinha o lado do anonimato. Tinha isso de tudo ser novidade, das pessoas acreditarem que porque as fotos chegaram do domínio @roseleonel, com certeza foi ela. As pessoas não tinham letramento sobre a internet. Mal têm hoje. 

Luiza de Andrade: Ele era advogado e diretor de marketing, quase um profissional, ele construiu uma narrativa, quase um cineasta também.

Bia Vilela: Ele soube arquitetar, exatamente. Ele sabia o limite jurídico que existia, sabia que isso não estava previsto em lei, que ele tinha um espaço ali para fazer uma maldade. E ele também tinha a técnica como diretor de marketing de fazer isso viralizar. Ele arquitetou isso.

Luiza de Andrade: Ele construiu o roteiro.

Natália Bocanera: Em um contexto em que a circulação de imagens é, em si, parte da violência, como filmar sem reproduzir o mesmo mecanismo de exposição que a obra critica?

Luiza de Andrade: Foi muito difícil. Vamos mostrar ou não vamos mostrar? Queremos mostrar? É importante mostrar, mas como é que a gente vai contar o crime e não mostrar o crime? A gente não vai estar fazendo exatamente a mesma coisa que ele? 

Bia Vilela: A gente entrou nesse embate ético. Internamente, a gente discutiu com a equipe, com a coroteirista, com o montador, toda equipe criativa e levamos isso para a HBO. E a gente chegou numa conclusão: a maneira mais ética de fazer isso seria recriar essas imagens com uma atriz, que concedesse as imagens livremente. A gente decidiu que ia usar um tapa-sexo. E mesmo assim, decidimos colocar blur nas fotos, caso acontecesse qualquer problema de vazamento das fotos.

Luiza de Andrade: Se cai na internet, que é o que aconteceu com a Rose, não tem volta. O negócio é espalhado para sempre. Do processo criminal, não pudemos usar nada, porque estava sob sigilo.Tinha algumas imagens lá que poderiam mostrar o nível de manipulação dele. Para se defender, ela (a Rose) falava: “Ele tem tatuagem, eu não tenho tatuagem.” Tanto que no final ele foi condenado. Isso ajudou a ser prova para condená-lo, mas as pessoas não conhecem o corpo dela para saber se ela tem tatuagem ali nas costas ou não. 

Natália Bocanera: A respeito dos limites éticos sobre o que mostrar e o que não mostrar, qual foi a participação da Rose nesse processo?

Luiza de Andrade: A gente mandava para ela e ela aprovava. Depois ela viu a série finalizada. Mas como era uma atriz ela nunca se incomodou com isso.

Bia Vilela: Teve a questão de não retratar os filhos, que foi um limite que ela colocou. Isso é um reflexo de como a relação dela com os filhos foi minada. Principalmente o menino, que não queria aparecer no documentário. Então, ela não tinha nem isso ao lado dela para contar essa história. Isso é triste mesmo. 

Luiza de Andrade: Tivemos alguns acordos. Teria que mostrá-lo (o filho) com a tarja, mesmo criança, para não identificá-lo adulto.

Bia Vilela: Mas é algo que a Rose exigiu, porque ela já tinha uma relação desgastada com os filhos e não queria desgastar mais ainda. Acho que a maior preocupação dela era que não aparecessem seus filhos e a neta. Você vê que realmente é um trauma. No nosso primeiro tratamento de roteiro, a gente pautou a linha da estrutura narrativa principal no depoimento de uma melhor amiga dela, que era a pessoa que estava mais próxima da Rose e viu tudo acontecer. Então, toda parte de desenvolvimento foi feita trabalhando com essa personagem, pensando nessa personagem. Quando chegou a hora e nós falamos que estávamos indo para Maringá, e sugerimos marcar com ela, ela deu para trás. E ficamos em choque, porque a gente se deu conta do tamanho da solidão da Rose.

Natália Bocanera: Nos próprios depoimentos você percebe um julgamento coletivo mesmo de quem está no círculo dela.

Bia Vilela: A gente acha que o documentário desmascarou e ele desmascara essas pessoas, só que é um machismo tão intrínseco que essas pessoas foram na pré-estreia do documentário e não se deram conta que elas estão vestindo a máscara de vilão no documentário. Não se dão conta do mal que elas fazem e fizeram a Rose. 

Natália Bocanera: Eu sou advogada e, Bia, você também já foi advogada. O caso Rose Leonel contribuiu para transformações legislativas importantes. Tivemos a criação do Projeto de Lei Rose Leonel que culminou  com a modificação da lei Maria da Penha para reconhecer que a violação da intimidade da mulher configura violência doméstica e familiar e para criminalizar o registro não autorizado de conteúdo com cena de nudez ou ato sexual de caráter íntimo e privado. Como foi equilibrar o discurso jurídico, que é bastante didático, à linguagem audiovisual?

Luiza de Andrade: A Bia deveria se perder mais no jurídico. Ela se perder no jurídico mudou a narrativa, teve troca de advogado e tudo.

Bia Vilela: Como assim se perdendo jurídico? 

Luiza de Andrade: Porque eu estava sempre focada na narrativa e você às vezes deveria se perder no jurídico, nas coisas que eu não entendo. Você ter se perdido no jurídico mudou a narrativa, porque depois você apontou que o advogado da Rose estava um pouco negligente. Isso muda a narrativa lá na frente. Mas para mim ter a Bia do lado foi perfeito, porque quando chegaram os processos, eu falei: “Nossa, que saco, o que que é isso?”

Bia Vilela: Foram 4.000 páginas de processos. São 10 volumes de processo civil, 10 volumes de processo penal e mais tantos de processos que andaram em paralelo. Eu sabia que eu ia ser a pessoa que mais ia entender aquilo. Trabalhei muitos anos com isso e senti um chamado, pensei: “eu vou ter que encarar isso de volta” e eu até gosto de brincar que eu fiz as pazes com o direito. A Bia diretora e roteirista fizeram as pazes com a Bia advogada. Eu comecei a ver a narrativa dentro do processo e comecei a ver que os advogados estavam panguando, que eles estavam usando teses que eu, com o meu direito, com a minha advocacia já defasada, questionei. Eu falei: “Mas eu teria usado a tese de desconsideração da personalidade jurídica, por que que esse cara não está usando?” O Eduardo tinha um monte de empresas, por que ele estava penhorando cadeira de praia? Eu disse a Rose: “Quando que você vai satisfazer a tua dívida?”

Luiza de Andrade: Até que a Rose fala: “Eu vou trocar de advogado”. Foi no meio do processo. 

Bia Vilela: Porque o documentário deu uma agitada nisso, as pessoas estavam sem se falar há um tempo. Então, como a gente chegou e foi reativando esses contatos e essas conversas foram surgindo. Eu acho que até dá para dizer que é um documentário de impacto social, porque a gente deu uma uma mexida naquele assunto que estava decantado e as coisas andaram. No nosso processo de pesquisa e de trabalho em dupla eu tive que elucidar muita coisa para a Lu, explicar os procedimentos. Acho que isso trouxe a necessidade de fazer uma série didática. Porque explicar para Lu, explicar para Gaia, explicar para todo mundo, me fez pensar: “se eu quero que o nosso público fique engajado na série, eu vou ter que explicar o que está acontecendo, senão eu vou perder meu público”. Então, acho que daí vem esse mergulho no direito, desse didatismo, senão as pessoas iam se perder e talvez perder a importância do processo todo.

Luiza de Andrade: Eu falo que ela se perdeu no jurídico porque ela entende, e eu estava focada na narrativa. Você já percebeu que eu gosto de babado! A narrativa estava lá. Depois no final eu já tinha entendido onde encontrar as páginas que têm as narrativas. Os termos jurídicos eu não aprendi até hoje.

Bia Vilela: Petição inicial, a contestação, tudo é totalmente parcial. Eu ia explicando para elas, são teses, isso aqui não é a verdade, isso aqui é o que cada advogado está falando.

Luiza de Andrade: Eu estava ali quase como uma espectadora e falava: “Se me pegou aqui, vai pegar o espectador”. 

Bia Vilela: Eu acho que isso foi o termômetro pra gente, para entender onde estava o drama, os bits da narrativa, entender nossa própria vivência como dupla criativa, lendo os processos, cada reação da Luiza.

Luiza de Andrade: Às vezes eu falava: “Isso aqui não eu não estou entendendo ainda. O processo sumiu do nada, por que o processo some? Como assim sumiu?” Aí você fica indignado. Que bagunça esse país. 

Rose Leonel (Imagem: divulgação)

Natália Bocanera: Vocês trouxeram coisas que não chegam para o público. Por exemplo, a importância de perder um prazo, a consequência para a pessoa. Vocês tornam acessível, mostram qual é o trabalho que o advogado faz e se ele desliza a pessoa sofre consequências diretamente, eu acho isso muito importante, principalmente porque estamos falando de construção de lei, de um caso que repercutiu. 

Bia Vilela: Quando a gente via que estava massacrando burocracia, exagerando no juridiquês, a gente decidia colocar uma dramatizaçãozinha.

Luiza Andrade: A gente assistiu todos os true crimes para se inspirar, estudamos a linguagem. A Gaia mandou muito bem, porque ela pegou todas essas informações. Ela conseguiu criar uma primeira estrutura, na qual a gente se baseou muito. Depois na montagem, a gente muda um pouco os episódios, mas de certa forma ela conseguiu dar uma linha estrutural muito legal. Era muita informação. 

Natália Bocanera: Como vocês enxergam a relação entre o crescimento contemporâneo de casos de misoginia, especialmente no ambiente digital, e a escolha de representar o agressor não como um “desvio” ou estereótipo, mas como um homem comum, socialmente integrado? Em que medida essa decisão narrativa contribui para deslocar a discussão da exceção para a estrutura, evidenciando que a violência pode estar ancorada em comportamentos normalizados e até legitimados socialmente? Acho que estamos no momento certo de falar sobre isso.

Bia Vilela: Eu fico até arrepiada ao você falar isso. A gente quis lançar a série na semana da mulher, lançamos no dia 10 de março. Porque é uma pauta urgente. E com certeza eu consigo imaginar o Eduardo participando de algum fórum red pill e lançando as maiores atrocidades. Ele representa esse pensamento. É importante tirar a caricatura desse homem, conscientizar que ele não vai ser um cara esquisito. Pelo contrário, é o mais carismático, é a pessoa que atrai pessoas em torno dele. É uma pessoa que pode ser teu primo, pode ser teu irmão, pode ser teu pai, teu tio. 

Luiza de Andrade: Não precisa ser um psicopata. Você precisa ser só cruel e é muito comum a crueldade, muito próxima.

Natália Bocanera: É uma conscientização que nós mulheres precisamos adquirir e disseminar, porque ainda é complexo reconhecer que pessoas próximas são potenciais criminosas. As pessoas não querem acreditar nisso.

Bia Vilela:  Ou que essa pessoa pode ser muito legal com você, mas com a namorada não.

Luiza de Andrade: Existe uma fantasia do que é o mal e do que é o bem, quase maniqueista. Em pequenas atitudes muitas vezes você é cruel sim, você machista, você assediou, você foi cúmplice, você não defendeu.

Bia Vilela: Toda mulher já foi assediada, mas nenhum homem é amigo de nenhum assediador. Então onde estão os assediadores?

Luiza de Andrade: Toda mulher conhece um homem abusador, mas nenhum homem conhece nenhum homem abusador. Até parece. Quando no depoimento da Eliane ela fala: “A mulher tem que se responsabilizar pela forma como ela veste, porque o homem não tem controle”. Claro, a gente montou dessa forma, mas em seguida entra a Natália, psicóloga, dizendo “É um absurdo a gente concordar que um homem inteligente, um ser racional, não é capaz de controlar os seus impulsos. Isso é uma fantasia absurda, que a gente finge acreditar.” Porque é verdade. 

Natália Bocanera: O quanto o cinema e o audiovisual em geral ajudaram a moldar esses pensamentos?

Bia Vilela: Com certeza. Nos próprios filmes da Disney. A maneira como retratam os vilões. Geralmente são super preconceituosos, colocam vilões que são queer, que tem a pele escura. 

Luiza de Andrade: É o homem, branco, hétero, é o vilão do Shrek. O Shrek mandou bem. 

Natália Bocanera: O que a forma como Rose passa a ser percebida, deixando de ser vista como uma “pessoa de bem” após a exposição, revela sobre a estrutura moral de uma sociedade conservadora? 

Luiza de Andrade: Uma grande hipocrisia. Na minha opinião. Nossa sociedade é muito hipócrita. Qual é a história da Rose? Ele vai pintar uma história que ela é garota de programa, então isso traz mais preconceito ainda. Imaginando de uma forma básica, ela estava transando com o seu namorado. Sim. Que hipocrisia. É sexo. Não é o que vocês fazem? Não é nada de mal. Não tem nenhum fetiche estranho, foi sexo básico. A sociedade é muito hipócrita e muito machista, porque coloca a mulher nessa caixinha. Você tem que ser a virgem, recatada, do lar.

Bia Vilela: A ideia da vítima perfeita. Ela é uma mulher que tem prazer no sexo, então ela é biscate, ela é puta, ela provavelmente se permitiu fotografar porque ela queria que essas fotos fossem vistas, ela é uma exibicionista. A mulher não pode ter prazer. Tem que preservar a imagem da mãe. Da virgem. 

Luiza de Andrade: A Virgem Santa Maria. Que teve Jesus sem transar.

Natália Bocanera: Imagino o quanto o documentário ajudou a Rose a se tornar consciente de tudo isso.

Luiza de Andrade: Eu acho que ela já estava se conscientizando, mas foi legal. O processo de entrevista durou três dias. A gente teve ao todo 21 horas de material bruto. Percebemos ela elaborando muita coisa ali no processo de entrevista, um processo meio terapêutico. A equipe ali era praticamente de mulheres. Às vezes a gente até se abria para ela, eu cheguei a abrir minha história pessoal. Dizíamos a ela: “Estamos aqui, nós, mulheres, a gente sabe que a culpa não é sua”. Foi até um desafio nosso tirar um pouquinho a raiva dela. Acho que talvez ela querendo passar a imagem de mulher do bem de novo, ela acha que não pode explodir. A gente dizia: “Rose, isso dá ódio, pode explodir.”

Bia Vilela: Foram anos cristalizando uma narrativa que ela se habituou a contar. Então, às vezes, a gente fazia umas perguntas e sentia que estava no piloto automático. Já tinha cristalizado algo até para elaborar, parar de pensar. A gente também tinha esse trabalho, de quebrar o que estava cristalizado, essa película. Eu acho que a própria sociedade cobrou que ela se tornasse essa vítima perfeita. Ela tentou se encaixar e entrou nesse discurso automático.

Natália Bocanera: A série foi feita quantos anos depois dos fatos?

Bia Vilela: 18 anos. Hoje faz 20. 

Natália Bocanera: Vemos o tempo que isso demora para amadurecer e no fim das contas não amadurece. 

Bia Vilela: É trauma. São muitos anos de trabalho de elaboração e foi uma ferida muito profunda. É muita terapia. Há o próprio ambiente em que ela vive, por mais que eu acho que ela tenha um mega mérito de não ter saído de Maringá, o que mostra muito da personalidade dela, da força dela. Por outro lado, se ela tivesse sido inserida em outro contexto, eu acho que talvez essa ferida pudesse se curar de uma maneira mais fácil. Numa sociedade que fosse mais cabeça aberta, que a recebesse melhor. Ali eu acho que é mais difícil mesmo elaborar esse trauma. 

Luiza de Andrade: Além de tudo, ele faz o crime, mas quem vai execrá-la, quem vai atirar pedra é a sociedade. E por anos. Como superar um trauma onde a violência não termina? 

Bia Vilela: A ferida não para de ser desferida. No nosso documentário a gente pergunta de quem é a culpa desse crime e as pessoas não sabem responder. 

Luiza de Andrade: O que é muito louco. A gente tinha uma pauta e algumas perguntas que eram iguais. Eu lembro quando fiz a primeira vez essa pergunta, e pensei, todo mundo vai responder que a culpa é dele. E a primeira resposta foi: “Boa pergunta. Pergunta difícil.” Por essa eu não esperava. E isso se repetiu. Tudo isso só existiu porque esse cara cometeu um crime. Em que planeta essa galera vive? Diferente do meu planeta, com certeza.

Rose Leonel (Imagem: divulgação)

Natália Bocanera: A série desloca o foco da vítima para uma responsabilidade mais difusa, coletiva. Qual seria, hoje, o papel do espectador dentro dessa cadeia? 

Bia Vilela: Pensando de maneira mais ampla, se um dia se deparar com algum tipo de crime desse tipo, se algum dia receber alguma foto, não olhar, nem abrir, muito menos encaminhar.

Luiza de Andrade: Principalmente compartilhar. Porque o crime é esse. Você se torna cúmplice do crime a partir do momento que você compartilha. Ao abrir, às vezes entendo que não carregou, você vai ver o que é e sem querer acabar se deparando. Se conhecer a vítima, alertar é muito importante. 

Bia Vilela: E tem que apagar. Se você for amigo da vítima, não apague para poder ter provas. 

Luiza de Andrade: Olha que conflito ético, quase filosófico aqui. É importante apagar, mas também precisa juntar provas.

Bia Vilela: É, a Rose mesmo orienta isso.

Natália Bocanera: Que foi a grande batalha dela, a construção de provas. 

Bia Vilela: Exato. Que é onde entra o nosso grande herói, o Castilho.

Luiza de Andrade: A vida dele muda depois, a carreira dele se transforma. Ele bomba depois que ele consegue resolver o caso da Rose. Ele foi bom, é legal o raciocínio dele. Ele vê as imagens no site pornô e tem milhões de imagens, ele cita mais de 4 milhões. Num determinado site ele percebe que a ordem das fotos era exatamente igual à ordem do e-mail. Um trabalho de cineasta. 

Natália Bocanera: Sem falar de spoilers, depois de abordar a exposição criminosa sofrida por Rose e suas repercussões, a série finaliza com uma foto dela com seus filhos. Como isso é importante na reparação da imagem dela e sobre o que desejam que permaneça?

Bia Vilela: A Rose real, mãe. Essa leoa que cuidou dos filhos. Essa foto conta a narrativa dela. Quem ela de fato é. 

Luiza de Andrade: Eu gosto dessa foto porque ela é a Rose que eu enxergo na sua mais pura humanidade. Ela não está maquiada. Ela não está posando, ela está até com uma feição mais espontânea, natural. Essa é Rose ser humano. 

Bia Vilela: E o desejo dela. Acho que a única coisa que ela queria mesmo era estar assim. Ela e os filhos.

Luiza de Andrade: Ela termina falando que quer que um dia os filhos se curem desse trauma. Porque se curar desse trauma é também curar a relação dela com os filhos.

Natália Bocanera: Pode-se pensar em audiovisual cumprindo o papel de uma mediação.

Bia Vilela: Eu acho que seria um sonho. 

Luiza de Andrade: Muito documentário acaba fazendo isso, transformando as vidas das pessoas. A Rose mesmo agora fala: “A vergonha mudou de lado”. 

Bia Vilela: A gente teve um relato de uma das personagens falando que a sensação na cidade é de ver que as pessoas estão envergonhadas com o que elas fizeram com a Rose. Que elas sentem que elas têm dever de desculpas. Agora, a cidade está se conscientizando finalmente, da responsabilidade que teve nesse isolamento da Rose, nesse bullying coletivo que ocorreu em uma escala bizarra. Se a cidade percebeu, esperamos que a série possa aproximar a Rose dos filhos.

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